É a morte um evento da vida?
por Raphael Douglas * – O fato biológico da morte é óbvio. Todavia, a mortalidade não pode ser explicada em sua totalidade apenas biologicamente. Então, sem muita retórica, nos defrontamos com a diferença entre a visão biologista da morte e a visão ontológico-existencial. Deve-se assim buscar o entendimento da diferença entre “finar” e “findar”. O “finar” diz respeito à aniquilação do ser vivo, da biologia, da interrupção dos movimentos biológicos comuns a tudo o que é vivente. O “findar” denota o fim próprio do homem. Nenhum ente simplesmente dado pode findar.
Os animais legitimamente não morrem porque não são dotados de mundo, são entes intramundanos, não dotados de um horizonte, nem de “sentido”, eternos enquanto vivos justamente por não serem estruturados como “temporalidade”. Em suma, a morte é uma possibilidade privilegiada do homem, ele é o único animal que tem a possibilidade de se “antecipar”, através da razão, à própria aniquilação. Assim, é justo que o taxemos de “ser-para-a-morte” (Heidegger). Pois bem, acabamos de ser heideggerianos e, como tal, aceitamos a difícil máxima: “A presença só pode deixar de viver na medida em que morre”. Tautológico? Pleonástico? Tenha calma.
Se a obra máxima de Martin Heidegger, Ser e Tempo, for lida de maneira ponderada, se verá que pelo jogo de conceitos e análises da existência humana (entendida como uma correspondência com o Ser e um êxtase para o fim) o homem está inexoravelmente ligado à morte com a possibilidade, face a ela, de re-significar a existência e modificá-la de tal sorte que se descubra autêntica. Logo, a morte é um evento da vida.
No entanto, nossa tarefa neste momento é tentar planejar, com o auxílio de alguns grandes pensadores e, por que não, do nosso próprio esforço, outra concepção acerca da finitude. Ludwig Wittgenstein, no seu Tractatus Logico-Philosophicus, afirma que “a morte não é um acontecimento da vida. Não se vive a morte”. Afirmar isso não é dizer que se possa ou não se possa fazer qualquer experientia mortis, mas sim que não é possível iluminar a própria existência face a um fim iminente e angustiante que advém de algo não real. Logo, não é possível “antecipar-se” à morte: a certeza mais incerta da existência. A morte nunca é portanto assumida; acontece.
Tentando concordar um pouco mais com a posição do filósofo vienense, cremos ser justo analisar o enigma da vida (bem mais incompreensível do que a morte) através de uma grandiosa obra de arte. Gustav Klimt, ilustre e ousado pintor austríaco, gera em 1916 uma obra intitulada Morte e Vida [no início do post]. Nossa breve especulação pode ser sustentada.
À direita, o ciclo da vida se sustém. Nascimento, desenvolvimento, o adolescer, emoções, alegrias, tristezas, reprodução, enfermidades e todos os sentimentos e fases físicas próprias aos homens, obedecem a uma fluidez inexorável que só poderá ter seu fio interrompido através da “chegada” dessa senhora, dessa alteridade misteriosa que vem até nós e toma de assalto o que lutamos para suster, como no connatus essendi proposto por Espinoza, ou seja, o esforço por perseverar seu próprio ser e conseguir meios para que essa manutenção seja mais intensa e eficaz ou ainda “aderir de maneira jubilatória ao seu ser no mundo.”
Nota-se, nesta obra de Klimt, que a morte é ignorada na maior parte da nossa existência. Ela “olha” para nós de forma constante. Todavia, não a analisamos, nem a “olhamos” constantemente, nem discursamos sobre ela diariamente. Com exceção das situações nas quais ela inexoravelmente é a “bola da vez”: velórios, morte de parentes, desastres, guerras. É justo afirmar que não há quem não pense profundamente na morte se quer uma vez na existência. Entretanto, como já adotamos aqui, a vida é que se apresenta como um enigma indecifrável. A morte é demasiadamente certeira e não há respostas sobre o que ela “seria”. Sendo assim, a máxima wittgensteiniana nos é muito cara. Em contrapartida, seria ingenuidade de nossa parte ignorar a importância do fato da finitude para a história da filosofia, como propõe Schopenhauer (em Dores do mundo). Porém, a importância que a morte subsidia para a vida é de caráter confirmativo onde uma é a condição de possibilidade da outra. Só há a possibilidade de analisar a própria morte vivendo, existindo.
É a vida e o vivente que conferem sentido à morte, seja através do discurso, seja do imaginário, do religioso, do místico, do folclórico. Ser para a morte é uma constatação demasiada exata como já vimos. Todavia, o perseverar na vida, no tempo em que se tem para continuar existindo, é tão forte ou até mais intenso do que essa caminhada até a inefetividade. “Ser temporal é ser ao mesmo tempo para a morte e ter ainda tempo, ser contra a morte”, diria o filósofo judeu Emmanuel Lévinas. Logo, a morte é que tem sentido dentro da vida e não a vida face à morte. Basta examinar a quantidade de concepções acerca da morte e do morrer dentro do globo. André Comte-Sponville, ilustre filósofo contemporâneo, atualmente professor na Universidade de Paris, é assaz bem-sucedido na sua fala para o justo entendimento do nosso apontamento, em A vida humana:
A morte é a regra, da qual a vida é a exceção. Nesse caso, porém, a regra só tem existência pela exceção que a desafia sem violá-la, que a confirma sem nela se perder. Aquilo que vivemos, a morte, que prevalecerá, não a conseguiria abolir – porque a vivemos, porque teremos vivido eternamente. Todos os seres vivos morrem, e só eles, sem eles a morte não seria nada. Isso significa que é à vida que vale e que dá valor: mesmo a morte só tem importância por ela.
Os convivas heideggerianos diriam: “o buraco é mais embaixo”. Redargüiriam dizendo que a morte é o existencial, o que há de próprio no homem e as expressões acerca dela – sejam religiosas ou filosóficas, à exceção de Heidegger certamente – são modos possíveis de abordar a morte, modos ônticos. A filosofia do “buraco é mais embaixo” corre sérios riscos de se soterrar dependendo da profundidade dessa fenda.
Talvez a morte não possua tanta força como deseja quase toda a tradição filosófica do ocidente (há quem diga que isso seja um pleonasmo). É por isso que o poeta cearense Alcides Pinto reconhece que talvez a “indesejada das gentes” precise de gente para insurgir, mesmo que de gente morta. Se não, como se manifestaria de per se? Assim, “a morte não faz diferença de uma criatura que passa, um vulto qualquer, só que vai deitada, como se fosse dormindo, levada pelos outros, sem força para se mover com os próprios pés”. (Tempo dos mortos)
Desta maneira, concluímos essa rápida e simples provocação com uma passagem do literato e filósofo romeno Emil Cioran, retirada do Breviário de decomposição. O motivo pelo qual tratamos da vida como algo tão enigmático quanto à própria inefetividade está claramente exposta na passagem abaixo.
É porque ela – a morte – não repousa sobre nada, porque carece até mesmo da sombra de um argumento que perseveramos na vida. A morte é demasiado exata; todas as razões encontram-se de seu lado. Misteriosa para nossos instintos, delineia-se, ante nossa reflexão, límpida, sem prestígios e sem os falsos atrativos do desconhecido. De tanto acumular mistérios nulos e monopolizar o sem-sentido, a vida inspira mais pavor que a morte: é ela a grande desconhecida.
* Raphael Douglas, Recife-PE, mestrando em filosofia na UFPE e professor. Blog: heideggerianices.blogspot.com
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A vantagem de entender a morte é eliminar parte do medo dela. Penso que a morte é uma ação sem reação, uma causa sem efeito, um evento sem tempo para frustar-se ou lastimar-se depois. Essa é a singular beleza da morte.
Verdade. Mas não sei se “entender”, como numa meditatio mortis, é uma maneira eficaz de eliminar o medo. Uma aproximação, um acidente, uma arma na cabeça é uma bela maneira de “experimentar” certo avizinhamento.
é eu tambem tive medo
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A escolha da obra de Klimt nesse caso e para sustentar essa tese foi simplesmente perfeita. Denota realmente a forte separação entre morte e vida.
A primeira vez que vi essa obra não pensei em outra coisa se não nessa separação abrupta entre entre a existência e a inefetividade.
Simplesmente fantástico!
Pingback: Andira Medeiros
Eu achei interessante o texto..Se bem que na minha humilde opinião a morte e as maneiras que ocorrem as mortes nada mais são que processos naturais da evolução do homem, que podem ser alterados por recursos artificiais.A ”máquina viva” que é um organismo multicelular é complexa, ma s não é perfeita, visto que de forma sintética é possivel sempre melhorar algo nela, bem como compreendê-la no tocante a seu funcionamento.A longevidade do ser humano vem aumentando década a década, e não tem sido decorrente d eum processo natural, por isso falar d e morte como algo iminente, imutável pode ser um erro.Olhando pela ótica de algumas ciências certamente será, visto que tudo tem carbono em sua composição,então nada tem um final, toda a matéria sempre é reciclada até mesmo com fins d eperpetuação da vida.
No futuro a morte poderá não ser exatamente o que é hoje.Poderia ser substituida por um processo de degradaçãoparcial da matéria onde alguns sistemas continuariam a funcionar de forma independente..Ou seja, exemplificando,para um corpo morrer não seria necessário exatamente que o cérebro morra também.
No futuro a morte pode não ser como é hoje? Hum… Será que, mesmo eternizando o corpo do homem, a ciência pode aniquilar também uma consciência mortal e certa fenomenologia do cuidado de si? A fragilidade do ser me parece inexorável.
Incrível texto.
Sem comentários. Já foi tudo muito bem dito.
Parabéns!
Mari,
muito agradecido pela apreciação.
Raphael,
(In)felizmente não sou dotado de “existência autêntica”, mas sou dotado de bom gosto. E me gusta de seus textos.
Abço.
Primeiro agradeço sua bondade. Mas pelo que posso perceber de seus textos e idéias em várias redes, existência autêntica não é algo que esteja tão longe de você.
abraço.
No começo achei que você fosse heideggeriano. Depois senti um cheiro de ironia no ar. Agora ao final acho que você é partidário de ambos: da ironia e do alemão ai. Na verdade você, pelo que achei no seu blog pessoal aprecia realmente o ato de zoar o Heidegger. Acertei?
Veja bem. Me considero um heideggerianóide. O que é isso? Leia um texto meu chamado “Taxonomia do estudante de Heidegger” e entenderás.
Abraços.
http://heideggerianices.blogspot.com/2008/09/piada-interna-taxonomia-do-estudante-de.html
Humm … prefiro aceitar o ato de minhas próprias ironias, ou o despertar do meu EU burlesco. Inevitavelmente a morte é certeira perfeita em sua pontaria, maestra em sua escolha, pois a todo instante ela é. Está presente.
Quanto a vida… um pequeno suspiro. Esse eterno medo de deparar-se com este desconhecido.
Pois bem, que venha e obviamente será mais uma vez perfeita em seu feitio, mas no momento desejo estar “em vida”.
Ótimo texto Raphael, como sempre fazendo-me romper castelos.
o dispositivo “querer viver” não carrega consigo qualquer tipo de carater reflexivo. É prático-compreensivo. Exitiria uma meditatio vita?
Excelente texto raphael, vindo de você para mim não é surpresa! abraço
Adilson,
Agradeço sua bondade.
Como explicar a morte para aqueles que acreditam ser ela uma passagem?
Mas passagem, até onde? Ha um locus post mortem? Não seria uma grandiosa contradição um não-ser para ser depois?
1) Até o céu
2) não
3) seria sim
Provocador, Rafael.
Gosto bastante da ontologia fundamental de ST e, ainda que o objetivo do teu texto tenha sido estremecer os heideggerianos, continuo achando muito complicado bater em Heidegger por ai. No entanto, aproveitando um pouco um dos autores que colocasse no diálogo, será que Levinas, ao fundamentar a subjetividade na ideia de infinito e dar a primazia ao ético, pode nos fornecer uma ferramenta para uma outra maneira encarar a morte? O que seria a morte por esse viés ético?
No fim, Heidegger e Levinas as vezes me parecem muito próximos. Talvez porque os dois são pensadores da diferença… Será que diferença ontológica e alteridade não seriam quase sinônimos?
Diogo,
Encarar a morte num viés ético seria encarar a morte do outro como a “morte primeira”, muito mais além que mero choque que nos impacta na cotidianidade (na impropriedade da “publicidade”), mera conseqüência do ser-com-os-outros (Mitdasein). Não a minha morte, mas a morte do outro é a morte primeira, pois é esse evento que me inicia e continua re-lembrando que sou mortal, pois não me apercebo desse fato todo o tempo.
Como diz o próprio Lévinas:
É minha mortalidade, é a minha condenação a morte, o meu tempo à hora da morte, a minha morte que não é possibilidade da impossibilidade, mas puro rapto, que constituem esta absurdidade que torna possível a gratuidade da minha responsabilidade para com Outrem.
Abraços.
Então tu acha que de certa forma pensar a morte por um viés ético nos proporciona estruturar a subjetividade de maneira não egóica? Não digo que Heidegger seja solipsista, mas apesar do Dasein ser Mitsein, ele ainda é ensimesmado.
Posso dizer que é a morte que desperta a responsabilidade ética?
Diogo,
Ainda na filodoxia, Lévinas diz:
A morte que o fim significa não pode medir todo o alcance da morte enquanto responsabilidade por outrem – pela qual, na verdade, torna-se se próprio: torna-se si próprio por essa responsabilidade incessante, não delegável. É pela morte do outro que eu que sou responsável a ponte de incluir-me na morte. O que se mostra, talvez, em proposição muito aceitável: “Eu sou responsável pelo outro pelo fato de ele ser mortal.” A morte do outro é a morte primeira.
É… vai ver o buraco é ainda mais embaixo do que os heideggerianos pensam
ahuahuaahuah
Buraco negro de opiniões.
Caro Raphael
Antes de qualquer coisa, belo texto. Inspira o pensar.
Acho muito feliz a frase de Comte-Sponville na qual “a morte é a regra da qual a vida é a excessão”. Primeiramente por sugerir que a própria vida decorre da morte. Eu vejo a própria inautenticidade (e todas as formas de publicidade que decorrem desta) como a morte à qual estamos imersos sempre. Somos o tempo todo uma espécie de morto-vivo a perambular pelo mundo. Posição esta de extremo conforto e praticidade. É o próprio adormecer de possibilidades. Nada é capaz de tirar-nos desse sono encantado que não a morte. Não a morte do outro, pois ensimesmado e protegido pela ilusão egóica, tal morte é para nós apenas assunto do dia. A morte capaz de despertar os dragões adormecidos, é a minha própria, que não vivo como experiência, mas vislumbro o seu não-ser através da angústia.
A vida, quase como vontade Schopenhauriana, é esse despertar que nos tira da dor e do tédio para colocar-nos num “não sei onde”. O enigma da vida é também enigma da morte e os desavisados que fogem desta, também evitam aquela.
A grande ilusão de identidade é a tamponadora desse enigma. É quem nos faz parar de perceber a incoerência do que somos, desse ser despedassado que simplesmente é. Que vela o fato que deixamos de ser algo o tempo todo para possibilitar o nosso ser, que somos o rio de Heráclito no eterno Devir ou, para falar cientificamente, que somos uma ficção de uma linguagem que escamoteia a “sopa” de elementos fisico-químicos cuja fronteira, a pele, se desfaz e se decompõe numa eterna e tosca mutação.
“Somos o tempo todo uma espécie de morto-vivo a perambular pelo mundo.”
Observação interessante. Biologicamente vivos, existencialmente mortos, em letargia total ou em funcionamento mecânico/vegetativo.
A morte se torna uma paixão quando se vive com absurda intensidade, a linha que separa essas duas severas pontas. Essa ponte. Nos coloca em uma posição priveligada para observar e sentir de perto suas correntes. Estar por um triz. Estar a flor da pele. Estar a dar a luz. Estar quase gozando….segundos antecedentes de um portal orgânico para um lugar que se deseja inconscientemente com todo fervor. É nesses momentos que sente-se o palpitar do universo em si. É nesse momento que damos as mãos a morte. vívidamente.
Não tenho medo dela. Quero morrer sempre mais para acordar melhor.
Como a música que diz.
Quero morrer numa batucada de bamba
na cadência bonita do samba….
Belo texto Rapha! beijos!
Josi,
Belíssima colocação. Se falamos de maneira fenomenológica, vamos ao mundo concreto, não só objetivo, mas o todo da existência. Dá para sentir em suas palavras o viver facticamente e de maneira lúcida a própria finitude. Falou grandiosamente ao dizer “quero morrer sempre mais para acordar melhor.”
=)
Raphael me rasga as idéias e me faz querer remendá-las. E eu que ontem acreditava que a fotografia analógica era considerada por Barthes como “a morte do ser”, hoje vou pensar sobre o que Heidegger e você querem dizer com isso.
Lindas palavras.
Milena,
Então pensar juntos. Será que morre o Ser?
=)
Hoje em dia, vemos filósofos que patinam nos conhecimentos das obras antigas, sem preceber que para nossa vida hoje com as descobertas recentes, muita coisa se tornou ultrapassada. Dizer que algum filósofo antigo está certo é, hoje, dizer que uma projeção do nosso conhecimento atual sobre o conhecimento antigo é que está correto. Pois é isso que vejo em seu texto, uma ótima projeção, uma atividade não de um filósofo mas, de um “filosofista” usando ferramentas filosóficas para refletir sobre a morte, com pitadas de antropologia e muita reflexão considero esse seu trabalho algo relevante num meio q ao meu ver produz tão poucas novidades.
Saber que eu não vivo minha morte e sim a de várias pessoas é aterrador, pensar no místico acerca das outras mortes, acho que é o q me faz temer mais a minha própria.
Virei seu fã, belo texto!
Bruno HG
Bruno,
Segundo Freud, o fracasso de filosofias como a do Idealismo alemão tendem a fracassar justamente por tentarem dar a humanidade uma visão de mundo pronta e acabada através de sistemas. O tempo passa, o pensamento “progride”, a ciência desvela informações sobre o homem e a natureza e, como diria Nietzsche, “as convicções são os principais inimigos da verdade.”
Abraço.