Invictus, de Clint Eastwood
por Ana Al Izdihar – Clint Eastwood, quando dirige, se mostra no mínimo eclético. Ele tem o dom de comandar narrativas totalmente diferentes entre si e todas elas têm uma marca definida. Sem dúvida, é possível encaixá-lo no dito cinema auteur. Em Meia noite no jardim do bem e do mal e Sobre meninos e lobos, por exemplo, ele mostra uma condução de enredo bem lenta (não significa sem ação) e de quase total observação, deixando as personagens e a ação quase que agirem sozinhas. Poderíamos até pôr nesses filmes o rótulo de “cabeça”, em clima quase europeu.
Já em filmes como Os imperdoáveis e Menina de ouro ele mostra seu lado mais popular, segundo a narrativa clássica hollywoodiana, em que o espectador torce rasgado para o protagonista; há momentos certos para chorar, rir, se agoniar e se aliviar com a vitória desse herói sofrido que sempre merece tudo o que vem a conquistar. Invictus (em cartaz desde 29 de janeiro), a princípio, pertence a esse segundo grupo, só que é baseado em fatos reais e construído com a aprovação e orientação das pessoas que viveram a história.
Como eu já disse antes em outras resenhas, como crítica, não discuto fidelidade em adaptações cinematográficas quando são feitas a partir de livros. Quando o enredo é baseado em fatos reais, mesmo assim, acho que devemos descontar as licenças poéticas dos roteiristas e diretores. Mas no caso de Invictus terei de comentar algo a respeito, até porque Eastwood fez questão de ser o mais fiel possível com essa homenagem a Mandela e à beleza do esporte.
Eastwood imprime neste novo filme, indicado a vários prêmios mundo a fora, sua predileção por estórias em que a força humana não se quebranta diante dos obstáculos mais duros e doloridos. Só que em Invictus ele amplia a experiência individual de superação à coletiva, em que um homem inspirado inspira a outro que inspira um time de rugby e eles todos inspiram uma nação inteira. Eastwood, mesmo seguindo uma narrativa clássica e até um tanto previsível, se supera em seu próprio estilo, como que mostrando através da recente história da África do Sul sua própria história como narrador.

-- Morgan Freeman e Matt Damon em cena --
Ao lembrar do processo de individuação sugerido por Jung, aqui o herói real Nelson Mandela traz de sua vivência e amadurecimento aquilo que ajudará seu país e seu povo a passar pela mesma maturação. Um avanço da alma individual que impulsiona, no momento histórico certo, o mesmo avanço à alma coletiva, a verdadeira e incessante alquimia do ser humano neste planeta. Fora isso, as cenas das partidas de futebol são tecnicamente feitas de modo excelente e a reconstrução dos cenários típicos beira a fiel reprodução dos locais reais, já disseram indivíduos que estiveram lá, como a secretária pessoal de Mandela. E há outra característica marcante das histórias de Eastwood: qualquer que seja o roteiro, os personagens liderados por ele falam bem pouco, os diálogos são sempre enxutos, diretos e claros. Em Invictus não é diferente.
E claro, Morgan Freeman representando Mandela é comovente. A dancinha de Mandela me trouxe lágrimas sinceras. Há o que se chama na África do Sul de Madiba magic (a magia de Madiba, nome de Mandela no clã sulafricano), a qual Freeman diz ter sido impossível captar, mas ele convence mesmo assim. Apesar de muito parecido com a figura real, Freeman parece não querer ser Mandela, e sim fazer lembrar o líder. Confesso que chorei várias vezes ao ver sua interpretação, não porque foi feita de maneira piegas, mas porque realmente me fez imaginar como viveu e sobreviveu um homem tão abatido pela vida: viveu mais de 20 anos numa prisão, lutou pelo que acreditava, perdeu sua família por isso, fez do perdão algo sem um pingo de pieguice ou caridade patética, e foi um estrategista político exemplar. Acima de tudo, manteve-se inspirado o tempo todo, “dono de seu destino e capitão de sua alma”.
[ veja o trailer ]
leia mais





















Pingback: Blog Arlesophia