Dormir por skype

1–02–2010 – Enviar para e-mail

por Camila Pavanelli – Homens geniais que vivem vidas geniais e formulam ideias ou criam produtos geniais costumam exercer fascínio sobre pessoas como eu e você, que produzimos apenas louça suja três vezes por dia e bolinhas infinitas nas nossas roupas ao longo dos anos. Mas nem só de homens geniais vive o gênio coletivo da humanidade: as pessoas que inventaram o ralador de queijo, o desentupidor de pia ou aquele aparelhinho que tira as bolinhas das roupas velhas não eram exatamente nenhum Copérnico, e nem por isso passaram pela existência sem deixar a sua singela marca no mundo. (Isso quem está dizendo é uma sobrevivente que ralou queijo, desentupiu pia e desbolinhou a roupa esta semana sem o auxílio de nenhum desses artefatos tecnológicos da modernidade – acreditem, eles fazem falta.)

Esses heróis do cotidiano jamais serão lembrados em nomes de ruas ou escolas; sua memória chega até nós exclusivamente através de sua obra. Isso porque, além de as ideias geniais cotidianas serem muitas, seus autores são mais numerosos ainda: eu posso até acreditar na existência de uma única nona específica que, desejando ardentemente lascas de queijo, tenha dado com o conceito de uma placa de metal pontilhada por furinhos cortantes; mas me parece bem mais provável que não só esta como inúmeras outras nonas pelo mundo tenham otimizado a ralação do queijo mais ou menos na mesma época, ainda que certamente nenhuma delas jamais tenha utilizado as palavras “queijo” e “otimização” numa mesma frase.

Mas o que, afinal, tem o queijo a ver com o skype?

Tem que o queijo ralado virou coisa pouca perto da maravilha que eu e outros milhares de heróis anônimos acabamos de inventar. Afinal, é sabido que namoro sem beijo é como macarrão sem queijo – e se às nossas avós coube solucionar o problema do macarrão solitário, à nossa geração cabe, se não otimizar a produção de beijos, que pra isso nunca ninguém precisou de ajuda, pelo menos encontrar técnicas alternativas de namoro para casais que, por estarem momentaneamente separados, não podem comer seus macarrões ao estilo Dama e Vagabundo.

Apresento-lhes, então, dicas para o bom cumprimento de uma atividade empreendida por namoros sem beijo do mundo todo:

DORMIR POR SKYPE

1) Em primeiro lugar, odeio eufemismos. Se este fosse um post sobre putaria, no título você leria transar, foder ou trepar. Adiante, pois.

2) Quem vai dormir é você e seu amado(a), não o seu computador. Ajuste os settings da bateria para que ele permaneça acordado e com a tela acesa a noite inteira.

3) Além dos eufemismos, odeio o(a). As pessoas não têm amádoas, elas têm amados e amadas. Como este é um texto baseado na minha experiência pessoal que não pretende abarcar a verdade universal da vida e dos relacionamentos humanos, seguiremos com o termo amado.

4) Um laptop é mais confortável para essa experiência, mas acredito que um computador de mesa dê conta do recado: basta equilibrar a tela e a câmera sobre a cama.

5) Analogamente, uma cama de casal funciona melhor para esse propósito, mas nada que um criado-mudo ao lado da cama de solteiro não resolva.

6) Se usar um laptop, é recomendável que ele esteja sobre um cooler.

7) Uma vez no skype com seu amado, ponha a chamada em tela inteira. Você não precisa multi-tarefar enquanto dorme; seu inconsciente fará isso por você.

8 ) Deixe a luz do abajur acesa: afinal, você pode não estar numa balada na Vila Olímpia, mas ainda assim você quer ver e ser vista.

9) De preferência, tente fazer com que os pés de ambos estejam virados para o mesmo lado (isto é, o contrário do que se vê aqui), para dar maior realismo à cena.

10) Reduza o volume dos seus alto-falantes para a metade do que estava enquanto vocês conversavam. O skype tem o desagradável inconveniente de, às vezes e sem aviso prévio, permitir a invasão das chamadas por uma horda de macacos assassinos que guincham e assoviam até acordar os pobres namorados sem beijo. É bom não facilitar.

11) O volume não deve estar tão baixo, porém, que não se ouçam as manifestações verbais e corporais do outro lado da linha. Dormir junto é sentir as ressonâncias do corpo do outro; é ouvir roncos e declarações de amor no meio da madrugada – entremeadas, eventualmente, da lembrança de que é preciso pagar a conta de luz no dia seguinte, amor, me ajuda a lembrar?

12) Pelo menos no começo, enquanto ninguém ainda estiver dormindo de fato, é bom que ambos estejam com o rosto voltado para suas respectivas câmeras, para que possam entreabrir os olhos e sentir, eba!, que o amado está mesmo aqui, olha lá a cara dele. Depois de dormir, porém, vale tudo: ter a liberdade de virar de costas para a câmera não só é permitido como inclusive é altamente recomendável para um sono que se pretende muito mais confortável do que uma solitária noite offline. Pretende-se, pois sempre existe o risco do ataque simiesco. Todo cuidado é pouco.

13) Dormir por skype é correr o risco de que a chamada caia no meio da noite. Ao primeiro que constate a queda, cabe ligar novamente para o outro; de qualquer forma, você vai ter o ônus de acordar ou ser acordado de madrugada. É chato? Sim, mas você acostuma. Afinal, se você se acostuma com o que a TV decide que você vai ver e com o que o rádio decide que você vai ouvir, por que não se acostumaria com ligações noturnas do e para o amor da sua vida?

14) Aliás, nada disso tem muito sentido se não for feito com o amor da sua vida.

15) Aliás, se ele é o amor da sua vida, o que vocês estão fazendo separados mesmo?

Pois é. Ao fim desses quinze passos rumo a uma das formas mais sofisticadas de namoro sem beijo, só nos resta concluir que o queijo ralado foi mesmo uma invenção muito mais bem-sucedida.

Mais do que isso, a solução para o namoro sem beijo – pelo menos para o meu namoro sem beijo – continua sendo aquela inventada pelas nonas das nonas das nossas nonas:

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3 comentários:

  1. Daniel (1–02–2010 12:57 am)

    Tá tudo muito bem e bonito, mas só espero que o teu casamento seja mais descolado que o do Seu Madruga :-p

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  2. Ele está aqui – Recordar, Repetir e Elaborar (1–02–2010 7:46 pm)

    [...] to the RSS feed for updates on this topic.Powered by WP Greet BoxNo dia em que meu amor chegou, um texto no Amálgama sobre como sobrevivi aos vinte e três dias mais penosamente longos que os relógios jamais [...]

  3. Mary (1–02–2010 8:49 pm)

    Aiai, namoro sem beijo e sem cheiro é mesmo tão triste. Muito válida essa técnica. É uma pena que pra mim não adianta…o amor da minha vida está há 12 horas de diferença de mim… a gente nunca tá dormindo ao mesmo tempo. Mas recomendarei a técnica por aí.

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