Woody Allen para turista ver
18–02–2009 --- Envie para um amigo --- Tuitar
por Juliana Dacoregio – Vicky Cristina Barcelona (EUA/Espanha, 2008) é um filme sexy. Ponto. Não só pelas “cenas calientes”, mas por toda a atmosfera de arte, amor, dolcce vitta e sedução. Uma “festa dos sentidos”, para começar de um jeito bem clichê. Você se imagina andando pelas ruas de Barcelona, vivendo aqueles momentos de tensão romântica, bebendo vinhos e vivendo como artista. É claro que você também se imagina fazendo outras coisas, mas é um filme que estimula mais o lado lúdico do que propriamente sexual, até porque as tão esperadas cenas entre Scarlett Johansson e Penélope Cruz não são “tudo aquilo” e, com um corte aqui, outro ali, é um filme que poderia, tranquilamente, ser exibido na Sessão da Tarde.
Há quem diga que Barcelona é uma personagem do filme. Uma forma carinhosa de dizer que Woody Allen filmou um institucional sobre a cidade e seus arredores. Aos saudosistas dos filmes nova-iorquinos e outonais de Woody não restam mais esperanças: pagando bem, se bobear, logo ele estará filmando no Rio de Janeiro, com direito a cenas no galpão da Mangueira e tudo! Mesmo sendo, descaradamente, um filme escrito e dirigido para alavancar o turismo na Espanha, não dá para negar que tudo foi feito com charme, apesar de nada sutil. A narração em off, que nos deixa a par das características das personagens e amarra toda a história, também nos informa que em Barcelona é possível encontrar restaurantes abertos depois da meia-noite (informação mais irrelevante para o desenrolar da trama, impossível). A câmera também passeia pelos pontos turísticos da cidade, mostrando o que ela oferece em termos de arte, beleza e entretenimento. Mas isso em nada desmerece o trabalho de Woody, que continua escrevendo (ou reciclando) ótimos diálogos.
Já a nova musa de Woody, Scarlett Johansson, continua sendo… Scarlett Johansson! Talvez por ela ser linda demais, talvez por ser estrela demais: o fato é que quando Johanson está em cena não vemos Cristina, sua personagem, e sim uma mistura entre o que ela já fez em Scoop e Match Point (os outros dois filmes em que ela atuou dirigida por Woody). Apenas durante o jantar em que Juan Antônio (Javier Bardem) se apresenta a Cristina e sua amiga Vicky (vivida por Rebecca Hall) é que conseguimos perceber no olhar de Johansson um pouco mais do que suas falas podem dizer.
Javier Bardem está apenas razoável no papel de “latin lover de alma artística”. É como se Juan usasse uma máscara para esconder seus reais sentimentos, mas mesmo quando ele os demonstra, parece não tirar a máscara. Parece que Javier Bardem não se preocupou muito em compor a personagem e confiou que olhares mortiços e escorar-se na parede fossem suficientes.
Penélope Cruz é a ótima surpresa do filme. Ela dá vida à personagem Maria Elena, ex-esposa de Juan Antônio, por quem ele ainda nutre total devoção. Apesar de Scarlett Johansson insistir em tentar ser a versão fêmea de Woody Allen, no que tange ao humor, é Penélope e sua Maria Elena que dão o tom humorístico do filme. Desbocada, mandona, cheia de caprichos, mas verdadeiramente talentosa é Elena. Apesar de louca e egocêntrica é uma personagem tão generosa e empática que é impossível não entender por que Juan Antônio continua apaixonado por ela, mesmo depois de ela tentar esfaqueá-lo.
Outra coisa que os pseudo-especialistas em Woody Allen (entre os quais me incluo) andaram dizendo e escrevendo a respeito de Vicky Cristina é que ele parece tudo, menos um filme de Allen. Discordo. Claro que não é nem de longe um dos melhores dele, mas o humor e a neurose “woodyallianos” estão presentes, ainda que de forma mais comedida (no caso das neuroses). Não se pode afirmar que seja uma comédia romântica para as massas, mas com certeza é um Woody Allen buscando um público jovem, que ainda não esteja tão familiarizado com sua obra.
[Veja o trailer]
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6 comentários:



O caráter “filme institucional” é tão presente que até prédios nada a ver com a história aparecem. O Hospital San Paul é transformado em um curso de inglês, apenas para que possamos ver aquela linda perspectiva que vai dar na Sagrada Família ao sair dele.
Todos os principais pontos turísticos estão lá: aquele prédio do Gaudí no Paseo de Gracia, o Parc Guell aparecendo várias vezes, a escadaria do Museu de Arte Românica. Ah, isso é chato. Parece coisa de deslumbrado. Em “Tudo sobre Minha Mãe”, de Almodóvar, quando chegamos em Barcelona temos apenas um vislumbre da Sagrada Família, para que saibamos que estamos lá, mas a história se desenrola em cenários mais naturais.
E o enredo deste, apesar de inteligente e bem escrito, é mais do mesmo, sem grandes achados. Match Point ainda é o grande filme de Allen dos últimos tempos, bem à frente dos outros.
humm, esse momento europeu do Woody não me agrada muito…
Dae Ju, tudo bem?
Mais uma bela crítica, de um belo filme. Esse momento europeu como citado no comentário acima ], na minha opinião rendeu um grande filme, Match Point, um bom filme Vicky Cristina, e um filme fraco Scoop. Na média esta bom. Só não concordo muito com a questão do filme institucional. No mais concordo com relação as atuações, principalmente com relação a Scarlet Johansson. Essa tentativa dela de se tornar a versão feminina de allen é bem clara em Scoop.
Agora é esperar sua próxima crítica, to estranhando esse período em que nossas opiniões estão batendo!!!!!
1 bjo e ate o carnaval
Gostei muito de Vicky Cristina Barcelona, mas minha preferência, em relação a filmes de Woody Allen, ainda fica com Match Point.
Ótima análise. Gostei muito do filme, justamente por seu um pouco diferente do que o Wood Allen costuma fazer. Acho que Javier Bardem cumpriu perfeitamente o papel que lhe foi destinado. Nada de grandes perfomances, mas o que o personagem pedia, na medida certa. As mulheres também desempenharam bem o papel, claro, com destaque para Penélope Cruz. Deu até vontade de ver novamente.
Eu gostei muito desse filme. Gosto de coisas com cores quentes e suaves.
E concordo com a Adriana, quando diz que o Javier Barden cumpriu perfeitamente o seu papel. Já que Juan Antonio instigava a curiosidade e o desejo feminino, mas no fundo não era um homem dotado de muita complexidade. Era um cara simples, que devia toda sua vida e fama a sua ex-mulher, que o influenciou artisticamente (pois, como Maria Helena afirma, o estilo de pintar dele, na verdade, é inspirado no estilo dela).
Eu bato palmas mesmo e para Penélope Cruz ,que está linda. Ela é a alma do filme, mesmo quando não está em cena, povoando o imaginario das demais personagens com seu jeito louco e encantador.
E eu ando gostando muito desse momento europeu do Woody… Mas se olharmos bem, e não nos deixarmos confundir pela paisagem nova, iremos perceber que as boas e velhas questões dos filmes de Allen estão lá, não importando a locação. Mas com um diferencial de que anda agradando o público que não podemos considerar fans de sua filmografia. Confesso que me espantei quando fui ver o filme e a sessão estava lotada. Contudo isso pode ser explicado pelo efeito Scarlett, que atrai muita gente, e acaba por presentea-los com um bom filme.