Quem tem medo de Clarice Lispector?
por Alfredo Cesar – Viver como professor de literatura brasileira numa universidade norte-americana tem as suas agruras. Vez por outra, em reuniões sociais, em meio a queijo brie, bolachas e vinhos, sou questionado por interlocutores gringos sobre que livro da nossa exótica literatura eles deveriam ler. “De todos os livros da literatura brasileira, qual deles você sugeriria para um leitor como eu?”
Essa é a parte em que engasgo com a bolacha e o brie, pois responder a tais perguntas é sempre muito difícil. Costumo indicar um conto pequeno de Clarice Lispector, chamado “Amor”, de Laços de família.
Engana-se quem pensa que faço tal sugestão por considerar Clarice Lispector uma escritora “universal”. Lispector é comumente considerada filosofante, abstrata e, por isso, universal. A universalidade que enxergo em Lispector não tem nada dessa dimensão etérea e nefelibata que muitos associam à sua prosa. Pelo contrário, penso que há uma crítica social bastante refinada na prosa clariceana. Não a crítica social da denúncia de nossa miséria, desigualdade e aberrações. Sua mirada é outra, pois explora nossa crise social tateando os desvãos de nossa consciência fraturada de classe média.
Em “Amor”, por exemplo, encontra-se condensada toda uma crítica social clariceana: a de questionar o mito romântico da mulher-família. Explico. Resumindo o conto de modo superficial, pode-se dizer que o texto trata de um dia na vida de Ana, essa dona de casa exemplar, mãe amorosa, esposa fiel. Ana vive com muita dedicação o seu papel de dona de casa, mãe e esposa. Um dia ela vê uma cena, a de um cego mascando chiclete, que a faz perceber, por um instante, que “a vida sadia que levava” até então “parecia-lhe um modo moralmente louco de viver”. A heroína entra em crise, e analogamente, o seu mundo inteiro balança.
As implicações desse conto são várias. Primeiro, algo digno de nota, ao contrário de um Rubem Fonseca, que narra um mundo decaído, com personagens cínicos e abjetos, ou mesmo de Nelson Rodrigues, obcecado com as disfunções da família brasileira (bizarrices, pedofilia, pederastia, incestos, etc), Clarice escolhe um mundo (quase) perfeito. Clarice propõe a seu leitor: vou construir, através da imaginação, esse mundo ideal para a maioria das minhas leitoras. E o mundo ideal para as suas leitoras femininas de então (só de então?) era um bom casamento, filhos, um bom lar… todas as convenções pequeno-burguesas de felicidade e comunhão com a ordem social.
No entanto, algo se passa com Ana. Num momento de epifania ela percebe que seu mundo gira em falso. Que aquele mundo e aquelas convenções estão muito aquém do que poderiam ser. Que o mundo que a cerca não vive à altura do que poderíamos ser. Fenômeno semelhante ocorrerá com Joana, personagem principal do seu romance de estréia, Perto do coração selvagem, e com outras personagens da contística clariceana. Mulheres de classe média alta que se vêem em crise diante da vida amorfa e vazia que levam. Diante da crise de uma “identidade feminina”, sempre ligada à guarida do lar.
Aqui temos a ficção a serviço do pensamento contra-intuitivo, da desconstrução pertinente de representações sociais cristalizadas, e do questionamento da posição da mulher no mundo moderno. Soluções? Essas ficam para os livros de auto-ajuda. A literatura moderna é quase sempre marcada pela negatividade. Ela denuncia e critica as formas esclerosadas de vida. Quanto a construir uma alternativa, isso não cabe à literatura. Cabe aos homens (e às mulheres), à política, aos sonhos, às utopias. Para reinvenções não há receita retórica.
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![- No domingo, manifestantes tomaram a Paulista em protesto contra a ação da PM em Pinheirinho [foto: Pádua Fernandes] -](http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/protesto-pinheirinho.jpg)



Olá, Alfredo.
Primeiro, acredito que em seu lugar eu recomendaria Rubem Fonseca. Em especial, “Feliz Ano Novo”. Mas, de qualquer forma, Clarice Lispector é uma ótima escolha.
Segundo, achei interessante um trecho do artigo: “A literatura moderna é quase sempre marcada pela negatividade.” Tenho, portanto, um link para recomendar: http://www.viscerasliterarias.com/2009/01/final-feliz-artificialidade-clich.html
Trata-se de uma pequena análise de um texto de Jorge Luis Borges – na verdade, uma transcrição de uma palestra -, em que o autor argentino demonstra um certo saudosismo com os finais felizes, já que a literatura moderna, como você disse, é marcada pela negatividade.
Eu ganhei um livro com varios contos brasileiros, de presente, e nele estava este da Clarice. E eu afirmo que tenho sim, medo dela, mas ao mesmo tempo tenho algo que me atrai, e que me faz gostar.
Depois que eu li esse conto, fiquei sentada por quase uma hora, me recuperando da ruína que ficou o mundo da personagem. Não consegui me manter indiferente, e ser apenas uma espectadora que acompanha a história.
Acho que a intenção de Clarice nunca foi essa.
Pingback: Juliana Dacoregio
Achei muito interessante seu texto todo, mas me atenho mais a questão da literatura. Tenho insistido em dizer que os melhores escritores não dão respostas, eles não trazem romances para nos deixarem leves e felizes. A boa literatura é desconcertante, como Kafka fez com A Metamorfose. Deixar o leitor abismado com o contexto. Felizes para sempre…para mim não cabe.
Saudações
http://www.cartasaoavesso.blogspot.com
Viva Clarice!
Sou fã de Clarice desde dos meus 18 anos (hoje, 27 anos). Li quase tudo dela por necessidade de responde algumas questões essenciais que atormentam o ser humano na mudança de fase da adolescência para o “mundo adulto”. Por mais que na internet e nos livros didáticos todos diziam que a obra clariceana fosse hermética, filosófica e difícil ela me ajudou muito a entender o meu dia-a-dia e principalmente minhas angústias. Adoro Lispector… Tenho medo da Virginia Woolf…. já tentei ler várias vezes e não consigo…. mas adoro o sua persona…. seus diários e sua biografias….
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