21–02–2009

Flertando com Jung


por Vanessa Souza – Freud e Lacan que me perdoem. Confesso minha infidelidade. Nas últimas semanas eu andei flertando com Jung. Ainda não estou tomada de paixão, mas sinto, como Bogart em Casablanca, que esse é o começo de uma grande amizade.

Nas últimas semanas participei de uns cursinhos de férias de uma universidade carioca, 16 horas cada um. Quase um cursinho pré-vestibular sobre cada tema. O básico-do-básico-do-básico. Mesmo com toda a pressa, deu para “desconfiar” de muita coisa.

Introdução à Psicologia Junguiana foi um deles. Nem sei por quais motivos nunca havia estudado Jung. Depois da primeira aula, até descobri que tinha um pequeno volume, do tipo resumo-do-resumo, sobre as teorias dele. Logo no prefácio, o autor já avisa que Jung era o Lado B da psicanálise: confuso, bígamo e ex-discípulo de Freud.

Carl Gustav Jung nasceu em 1875, na Suíça – só para situar o leitor. Estudou medicina, tornou-se psiquiatra e em 1906 trocou a primeira carta com Freud – precursora de uma vasta correspondência. O primeiro encontro pessoal dos dois durou 13 horas. Eita cafezinho longo! A amizade não durou muito. Jung divergiu das idéias de Freud e, em 1913, Sigmund rompeu com o pupilo. Jung ficou anos deprimido por conta dessa cisão.

Uma das coisas que mais me chamou atenção na obra de Jung foram os arquétipos. Perdoem-me se eu for muito didática, mas meu conhecimento sobre o tema não me permite maiores termos-técnicos-que-mostram-que-o-autor-sabe-tudo. Arquétipo é tudo aquilo que é basilar para o ser humano, que é universal. Quando nascemos teremos todas as experiências básicas/arquetípicas que estão previstas, no mundo mental, biológico e os instintos. Os arquétipos são tijolinhos vazios, onde cada um coloca sua massa de experiências, sua tinta. O arquétipo é bipolar, tem seu lado bom e ruim. Como o arquétipo da mãe nutritiva e o da mãe devoradora – aquela que alimenta e aquela que sufoca. Quem não tem uma delas? Ou as duas, alternadamente.

Outro conceito de Jung que eu adorei é a sombra. Para Jung, a sombra é tudo aquilo que o indivíduo não queria ser. Ou seja, o que ele deseja jogar para baixo do tapete – “O complexo de sombra pode se compor tanto de conteúdos que nunca estiveram na consciência como daqueles que foram reprimidos por estarem em desacordo com a identidade construída pelo ego”.

Os tipos psicológicos, que eu já tinha ouvido tantos psicólogos falarem, só ficaram claros agora. São quatro as funções da consciência: sentimento (que confere diferentes valores às experiências), pensamento (que apreende os significados), sensação (a apreensão por meio dos sentidos) e a intuição (que capta as possibilidades futuras e o “clima” do ambiente). O pensamento e o sentimento são racionais, sensação e intuição, irracionais.

No fim das contas, resultam em oito os tipos psicológicos, pois cada uma das quatro funções da consciência podem ser extrovertidas ou introvertidas – as atitudes do eu. Resumidamente, no extrovertido a energia psíquica é voltada para o mundo dos objetos e acontecimentos exteriores, aos quais ela se liga e dos quais depende; já o introvertido é voltado para os objetos internos ou subjetivos, que determinam o comportamento.

Para concluir, o que ocorre é que uma das funções se desenvolve e serve como a principal forma de adaptação do indivíduo. Duas outras funcionam como funções auxiliares e a quarta fica pouco desenvolvida, tornando-se próxima do inconsciente. Agora eu entendo como alguém pode ser puro sentimento e ser capenga no pensamento. Ou qualquer variação sobre o tema.

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  1. Adriano Hungaro (21–02–2009 9:05 am)

    Olá VAN! É sempre muito bom e prazeiroso ter acesso aos teus escritos. Nos trazem, à vida, o acréscimo de cultura e de diversas particularidades de um pensamento e criação ilimitada. Parabéns pelo texto. Interessantíssimo!

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  2. André HP (21–02–2009 12:55 pm)

    Jung é mesmo brilhante.
    Agradeço ao post! Didático bem adoçado, de jeito que gostamos.

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  3. Antonio Morais (22–02–2009 8:15 am)

    Eu também sou leitor/admirador de Jung e estou divulgando uma lista dos livros da psicologia junguiana publicados no Brasil. Quem quiser consultar, incluir ou excluir livros da lista é só visitar o site http://bibliografiajunguiana.googlepages.com/
    Um abraço.

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  4. Ana Al Izdihar (24–02–2009 12:50 am)

    UFa! Até que enfim, JUNG! Já estava cansada de falar sozinha!

    Será que agora terei uma interlocutora de verdade? hahahaha

    Muito bom texto. Informativo, é o que se precisa…

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  5. Fabi (25–02–2009 10:41 am)

    Só você para flertar com Jung sem banalidade. Despertando no leitor o latente interesse, de forma descomplicada como um flerte tem de ser!

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  6. Luciano (25–02–2009 11:48 am)

    Curti o artigo sobre Jung. É muito importante ampliar nosso conhecimento e poder curtir esse psicólogo massacrado pela elite intelectual dominante da psicologia. Que venham os arquétipos e o inconsciente coletivo! Parabéns, Vanessa.

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  7. Lucyano de Mattos (26–02–2009 9:47 am)

    Vanessa,

    Que post iluminado!

    A psicologia está sendo um grande aliado pra mim que sou amador e não profissional da área.

    Seu artigo tem uma didática ímpar.

    Muito obrigado!

    Lucyano

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  8. Sandra Martins (26–02–2009 10:58 am)

    Vanessa, vc consegue tornar simples as coisas complicadas, isto é um dom da inteligência!!! Até conseguiu me fazer entender e isntigar a curiosidade, eu que não sou da área! Quero mais!

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  9. Eutimio (8–03–2009 8:48 pm)

    Ola prezada Vanessa! Bemvinda ao clube dos jungueanos e aprendices! Continuo pensando em deja-vú

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  10. francisco (18–10–2009 3:29 pm)

    vanessa,
    eu já havia lido esse post antes de conhecer vc.
    costurei mais um pouco da imagem depois de relacionar vc ao post.

    quer dizer que ficou só no flerte com jung?
    nada mais sério?

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  11. Vanessa Souza (18–10–2009 5:28 pm)

    Chico,
    Nada mais sério.
    Tenho uma paixão irremediável por Lacan…

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