3–02–2009

Fados, de Carlos Saura

Carlos Saurapor Diego Viana – Carlos Saura é membro daquele restrito grupo de artistas que podem fazer o que bem entenderem, porque já provaram que dominam uma estética e uma linguagem em todas as suas dimensões; quem se mete a querer criticá-los, se não faz parte dessa mesma seleção, corre o risco de passar por néscio: a um mestre, tudo, mas tudo mesmo, é permitido. No caso do diretor espanhol, é difícil e improdutivo tentar ver algum de seus filmes sem aceitar o paradigma sauriano de que a imagem, e na imagem o gesto, deve bastar para construir a expressão. Isso é dado.

Na verdade, a imagem tem a função, ao mesmo tempo, de realçar o gesto e estruturá-lo: tal como aparece na tela, o gesto é o resultado da luz, do ângulo, do foco, da distância, numa composição cuidadosa e explícita do diretor. No cinema de Saura, gesto e imagem são a mesma coisa. São o tijolo com que se constrói a estrutura de seus filmes, e dão numa obra ao mesmo tempo narrativa e descritiva, como queria o antigo paradigma do ut pictora poesis.

Todo esse preâmbulo é para escapar de uma eventual lapidação pelo que vou escrever sobre Fados (2007), a mais recente aventura do diretor de Cria cuervos (1976) no universo musical. Primeiro, foi a série sobre o flamenco, que rendeu filmes como Carmen (1983), Flamenco (1995) e o corajoso, aliás, às favas o comedimento, o admirável Bodas de Sangue (1981), em que o movimento dos dançarinos na sala de ensaio, gesto e imagem magistralmente indiscerníveis, dá vida ao texto de García Lorca. Mais tarde, Saura deu um salto da Espanha para uma de suas ex-colônias e tematizou o tango argentino, mas não posso comentar Tango (1998), lamento, pelo motivo singelo de que não o vi. Pois bem, o diretor está de volta à Europa, na antiga província espanhola que é Portugal, país de bravos marinheiros insubmissos.

Fados passou no último Festival do Rio e agora está em cartaz na França. Tenho pena da pessoa que teve de escrever a sinopse do filme para o guia do jornal. Com dificuldade para aceitar a hipótese de que seja um documentário, o redator saiu-se com um esperto “Musical”, que tem lá seu fundo de verdade. Mais verdadeiro, provavelmente, teria sido dizer que se trata de uma sucessão de clipes, à la MTV, sem o video-jockey que anuncia as faixas. Mas mesmo isso seria impreciso.

De fato, o filme apresenta, do início ao fim, um fado atrás do outro, interpretado por cantores, instrumentistas e bailarinos, e nada mais. Como aceitar que isso seja um documentário? Ora, primeiro é preciso aceitar o paradigma da linguagem de Carlos Saura, de que já falei. Quem conta a história do fado não é um narrador onisciente, nem o relato melancólico de uma miríade de entrevistados, nem os arquivos e gravações de outras épocas colados em pastiche, como se costuma ver em documentários. Com Saura, devemos ler o relato que nos dão os rostos em close dos cantores, os passos veementes da dança, as cores e as variações de plano que pontuam a música.

Nesse último filme, o mestre apostou todas as fichas em seu paradigma, manifestou confiança absoluta em seu dom e levou a linguagem às últimas consequências. Senão por um parágrafo curto no início, quase não há mais nada na tela senão a música e a dança, o gesto e a imagem dialogando com o som.

Mas ouso dizer que a aposta falhou. Quem não conhece o fado, a melancolia sempre doce do português, a religiosidade imanente, a mistura tipicamente portuária de uma terra que se libertou de mouros e espanhóis para conquistar meio mundo e depois descansar; quem não está acostumado a essa música tão dolorosa e tão rica, enfim, sairá do filme certamente decepcionado. Sua impressão será de que os cantores são histéricos, as canções melodramáticas, o gosto francamente abaixo da crítica. Grande parte da culpa recairá sobre as coreografias, no mais das vezes óbvias e não raro cafonas, conduzidas pelos dançarinos que são o xodó de Carlos Saura. Retorcidos e exagerados, os gestos transcritos na imagem são sempre enormes, estourando, impositivos. O que eles dizem é que aquilo não está certo, que aquilo não é bom.

Mas isso é falso, muito falso, como bem sabe quem está familiarizado com Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, Argentina Santos, Mariza e tantos outros que são retratados no filme, nem sempre de maneira que lhes favoreça de fato. Para não trair sua própria linguagem, seu paradigma estético, para conseguir que o gesto desvelasse uma história longa, complexa e profunda como é a do fado, Carlos Saura foi obrigado a fazer a imagem gritar, berrar, esganiçar-se. O resultado é que a imagem perde a voz e a história do fado se esboroa debaixo da histeria.

 
Chico Buarque em 'Fados'P.S.: Aliás, três famosos brasileiros cantam no filme, e nos dão uma excelente oportunidade para aprender a diferença entre 1) ser, 2) parecer, e 3) nem ser, nem parecer. De trás para frente: 3) Toni Garrido, o próprio, é escalado para interpretar um lundu mineiro (e quem não conhece fica sem saber que é um gênero mais antigo que o próprio fado). Pois bem, o ex-Cidade Negra faz uma versão digna de Mariah Carey, que eu sinceramente preferia jamais ter visto. 2) Algumas sequências à frente, Caetano Veloso, banquinho, violão, terno impecável e par de óculos, toca para nós um fado em voz de contra-tenor, com um sotaque português forjado e, cá entre nós, absurdo. Arrogante? Cretino? Ambos? Pois bem: ambos. 1) E quem redime nosso país é, para variar, Chico Buarque, que canta galhardamente seu “Fado tropical” diante de imagens da Revolução dos Cravos, elegante como ele só, enquanto um sóbrio Carlos do Carmo interpreta o soneto de Ruy Guerra. (Por outro lado, fico imaginando o que terá entendido da coisa toda quem não conhece bem a história de Portugal e do Brasil…)

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| 16 comentários | Dê sua opinião ↓ |

  1. Adriana (3–02–2009 10:23 am)

    A sua análise dá uma dimensão interessante da obra de Carlos Saura. Em relação a “Fados”, felizmente, temos o Chico para nos salvar, como sempre. Parabéns.

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  2. Daniel (3–02–2009 2:58 pm)

    Caetano Veloso me diverte, em qualquer ocasião…

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  3. Diego Viana (5–02–2009 8:16 am)

    Uma pequena emenda para o texto: onde está Portugal, ANTIGA província da Espanha, leia-se OUTRORA província da Espanha. Como está, pode permitir uma leitura errada.

    Quanto ao Caetano, não me entendam mal: é um gênio da música e da língua. Cretino e arrogante são adjetivos aplicáveis a esta intervenção somente (e algumas outras, claro…)

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  4. Fabio (8–02–2009 2:06 pm)

    Menos mal la aclaración de cretino y arrogante..algo no me quedó claro..voy o no voy a verla al cine?

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  5. Diego Viana (8–02–2009 10:29 pm)

    Vá se lhe despertar o interesse. Longe de mim querer interferir na sua liberdade de escolher os filmes a que assistirá.

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  6. Wanderly Araujo (12–02–2009 11:19 pm)

    Não vou ver o filme..cansei só com as explanações.Gosto de enredos, histórias que nos permitem dar asas ao imaginário.A apreciação dos sons vai por outro caminho.Pra mim…fico por aqui

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  7. Bill Wake (30–10–2009 2:37 am)

    Adorei o filme. Nao tenho nehum vasto conhecimento sobre fado, mas apesar disso, o filme valeu. Nao acredito que ele tenha falhado, o filme mostra fados através da mao sauriana (como vc apontou, o gesto-imagem), é simplesmente isso. Nao é um filme genial, que te vire do avesso e te instigue. Nao tem grandes pretensoes e nao alcança grandes objetivos. Mas, eu acho que é um bom filme.
    Quanto à interpretaçao do Caetano, talvez nao tenha sido a melhor, e sem dúvida nao se compara à que ele já fez em 1986 (que aparece no disco ao vivo Totalmente Demais), mas ñ acho que o problema seja o sotaque. Ele ñ pretendia ser um português naquele momento. Todos sabemos (incluindo ele) que ñ é o sotaque português perfeito e que nunca vai ser, ele digeriu o sotaque (talvez seguindo sua velha veia oswaldiana). O sotaque pode ser um caráter fundamental de uma música (ou de maneira mais ampla, de um estilo musical), que, se retirado, perde-se um signo estético-expressivo/cultural-regional. A cançao, como arte que vive na intersecçao entre literatura e música, e cujo valor poético nao reside apenas na letra impressa ou nos aspectos sonoros, mas sim na junçao e conversa das duas, na perfomatizaçao da letra. O sotaque faz parte dessa performance. O sotaque é um traço musical e expressivo. Querer manter esse traço é uma escolha do intérprete. Ao mantê-lo, Caetano força o olhar para esse aspecto. Caetano está tratando o portugês-português (de Portugal) como outra língua. A sua interpretaçao decorre disso. Da mesma maneira como um cantor brasileiro (o próprio Caetano, já fez isso) canta em inglês e se percebe (no geral) que quem canta nao é britanico, nao é norte-americano, nao é australiano… é simplesmente um brasileiro cantando em inglês. No inglês reside um sotaque brasileiro. Caetano está cantando em português-português. No português-português reside um sotaque baiano. Nao quero que isto fique parecendo uma mera bajulaçao à Caetano. Gosto muito da obra dele, um dos grandes poetas brasileiros, mas ñ é o mesmo Caetano baiano de 20 pra trás, leve, livre e perturbador… agora se sentou no seu troninho com seu óclinhos e seu terninho armani.

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  8. Diego Viana (30–10–2009 4:55 pm)

    Salve Gabriel, obrigado pelo belo comentário. Concordo com todo o seu primeiro parágrafo e acho suas colocações sobre Caetano muito interessantes. Não sei, porém, se concordo muito com a idéia de que um determinado sotaque seja inseparável de um estilo musical. Seria o mesmo que dizer que alguém que não tem sotaque da Zona Norte do Rio não pode cantar samba de roda. Essa perspectiva me parece descambar um pouco para um certo “imperialismo da pronúncia”, no sentido de que sotaque é coisa dos outros, portanto o que eles fazem é interessante por causa do sotaque. Seria exigir sotaque nordestino de todo cantor de forró (ou baião) e assim por diante. É puxar para o lado do pitoresco, anulando todo valor propriamente estético e todo regionalismo cultural, por reduzir o regional à mera forma “diferente” de pronunciar. Percebe? Aliás, é a tentação em que as pessoas caem muito em São Paulo, já reparou como paulista pensa que sotaque é sempre o dos outros? Enfim, estou divagando… Mas por falar em São Paulo, isso é completamente diferente do que fazia Adoniran Barbosa, que usava o falar do proletariado paulistano para dar sentido às suas composições, como o autor da Divina Increnca (cujo nome me escapa agora), e essa pronúncia particular (e, no caso, cheia de erros) é de fato inseparável da obra. Tente cantar “Tire ao Árvaro” como “Tiro ao Alvo” e você matou a música. Não é, claro, o caso do fado. Fado não é “sotaque português”. Ele é música nascida em Portugal e se a pronúncia é aquela dos portugueses, ora, nada mais natural. Tampouco podemos exigir de um cantor português que cante garota de Ipanema como se tivesse nascido na Aldeia Campista. Seria ridículo e também seria uma forma de “imperialismo da pronúncia”, como faz Caetano sem querer. Aliás, quando Caetano canta em inglês, ele faz a melhor pronúncia que pode. Nem imita um sotaque britânico que ficaria ridículo, nem “faz o tipo” do brasileiro tentando falar inglês com sotaque macarrônico. Teria sido mais honesto da parte dele cantar com sua pronúncia autêntica, como faz, por sinal, Chico Buarque no mesmo filme. De toda forma, a hipótese que você levanta é interessante. Até que ponto se pode universalizar um estilo musical? Um estilo musical cantável em qualquer língua e pronúncia é superior a um que fique estranho fora de seu contexto? Os Beatles deveriam ter imitado o sotaque dos rednecks americanos pra cantar Roll Over Beethoven? O Led Zeppelin deveria ter feito isso para cantar Baby I’m Gonna Leave You? Sou da opinião de que isso teria sido um absurdo.

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  9. Marçal Alves Leite (9–11–2009 12:34 am)

    Prezado Diego
    Após assistir a Fados, em sessão de pré-estreia, ontem a meia-noite, na qual havia na sala apenas outra pessoa além de mim, mais indignado fiquei com Nelson Motta. Em uma das primeiras matérias no seu novo quadro no Jornal da Globo, diretamente de Lisboa, o metido a entendido musical zombou do fado e falou besteiras sobre a música portuguesa. Em nenhum momento lembrou do surgimento nos últimos anos de várias e extraordinárias cantoras, como Mariza, que levou uma multidão em show ao ar livre na Torre de Belém, ou Ana Moura, que participou de faixa em disco do Mick Jagger, que chegou a ir secreto e especialmente a Lisboa para assistí-la em uma casa de fado tradicional.
    Apesar de somente agora ser projetado em Porto Alegre, constatei que Fados não é deste ano e, portanto, o crítico da Globo deveria ter visto ao fazer um balanço da música portuguesa. Pelo menos, citar. Mas também não o fez com Fado Capital, um excelente documentário de 2003, de Lourenço Henriques, que é vendido em DVD até em supermercados no Brasil. Acredito que, assim como o tango, o samba e o flamenco, o fado jamais vai morrer e será sempre moderno, pois estará infinitamente se renovando em novas vozes e formas… Fados é uma prova disso.
    Quanto aos brasileiros, prezado Diego, gostaria de fazer algumas ressalvas quanto as suas considerações. Surpreendi-me pela presença de Toni e Chico, pois a imprensa divulgou apenas a participação de Caetano, que, na minha modesta opinião, justamente se encaixa no item 3 de tua análise, mas acrescentando um “só para aparecer” aos termos “nem ser” e “nem parecer”.
    O Chico é (ou está) um ser realmente extraordinário, emocionante… O Toni, sinceramente, não na grandeza do Chico no filme, é claro, também poderia ser classificado no item 1. Inclusive, demorei a reconhecê-lo, pois o confundi com tipos de Angola ou Moçambique de tão bem achei em relação a seu próprio trabalho ou estilo.
    Abraços
    Marçal

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    Diego Viana:

    Salve Marçal,
    Nelson Motta deixa a desejar em muitos, muitos aspectos (eu queria dizer algo mais agressivo, mas, sabe como é, andam processando todo mundo por aí…). Acho que a melhor maneira de lidar com ele é pular suas páginas ou mudar de canal!
    Tem razão, o fado nunca vai morrer. Aliás, sobre Marisa, uma anedota: dizem que, no Carnegie Hall, ela mandou desligar o microfone para testar se era verdade que aquela sala tinha a melhor acústica do mundo. Cantou no gogó e, segundo relatos, do fundo da sala ouvia-se com perfeição. Quantas cantoras ousariam algo assim?
    Abraço
    Diego

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  10. Recomenda-se « Veja e Dance! (30–11–2009 1:28 pm)

    [...] aqueles que deram certas alfinetadas no filme, como o crítico Diego Viana, do site Amálgama. Segundo ele: Mas ouso dizer que a aposta falhou. Quem não conhece o fado, a [...]

  11. jose carlos fernandez (22–02–2010 9:13 pm)

    nao encontro dvd de saura nem a pau

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  12. paulo roberto azevedo (3–03–2010 6:57 pm)

    nao tem em lugar nenhum esse dvd do carlos saura

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    fred borges:

    Tem sim. Na Laserland e na Livraria Cultura, ambas em São Paulo. O preço é salgado, mas na Laserland tá mais barato.

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  13. eron duarte fagundes (27–03–2010 6:09 pm)

    Diego, discordo de quase tudo o que dizes deste último filme de Saura, que acabo de ver: é provavelmete o melhor Saura desde “Sevilhanas”, de 92 se não me engano. Não considero Saura inatacável: ele fez grandes filmes nos ano 70 (“Elisa, vida minha” e “Cria cuervos” acima de todos) e bem no cmomeço dos 80, mas depois foi caindo e seu filmes dos últimos 20 anos oscilam entre o interessante (Táxi, Tangos)e os simplesmente medíocres (Flamenco, Dispara, Goya); mas “Fados” resgata sua genialidade. Achei a participação de Caetano e Toni Garrido muito divertidas e linguisticamente curiosas, e a de Chico muito bonita.

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    Diego Viana:

    Até que não discordamos tanto assim; vamos convir que, apesar de não ser 100% laudatória, a resenha é bastante positiva.

    (Um aparte) Curioso é que esse antigo post continue trazendo comentarios, enquanto outros mais recentes quedam à míngua. Por que será?

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