Atraída pela capa, fisgada pela história

Um livro peculiar, assim como peculiares são seus personagens. Todos eles.

Estava num desses passeios por livrarias numa cidade para onde acabava de me mudar. Cidade não tão desconhecida para mim, mas ainda estranha. E sempre que estou em lugares assim e em determinados momentos sinto-me uma estrangeira, as livrarias são os melhores refúgios.

E foi nesse dia estranho, num lugar estranho, que me deparei com ele.

A libélula e seus oito anosO que me chamou atenção à primeira vista foi a foto da capa. A garota ruiva, de cabelos presos, alguns fios soltos ao vento, cabeça baixa, testa cheia de sardas. O retrato se destacando, mas ao mesmo tempo se misturando ao fundo que parecia ser um muro velho de concreto ou qualquer coisa desfocada. Claro que o título também me atraiu, formando um conjunto harmonioso com essa espécie de leitura dinâmica da imagem, mas percebido milésimos de segundos depois: A libélula dos seus oito anos. Foi como se com tal ilustração de capa não pudesse haver outro título para esse livro e vice-versa. E havia também, é claro, a libélula: branca, quase imperceptível, em alto-relevo, justificando o que estava por vir.

Pois levei para casa: as sardas, a garota ruiva, os cabelos ao vento, a libélula. Como se me apropriando daqueles símbolos eu estivesse me apropriando daquela simplicidade, da poesia dos traços suaves do desenho e encontrando na cabeça baixa da garota uma companheira de solidão, de sentir-se estrangeira no mundo inteiro. Não sabia que estava levando uma história que me faria querer mais: mais dela, relendo-a diversas vezes e sempre encontrando um sentido novo, e mais do autor, Martin Page, um francês poucos anos mais velho que eu, que gosta de chá e “já não é estudante, sem, no entanto, nunca tê-lo sido verdadeiramente”. Eles todos me serviram de companhia. Primeiro sofregamente por três dias, já que logo terminei a leitura. Depois na memória e nas releituras de um trecho aqui, outro ali, na busca de significados, no estranho conforto que um livro sem respostas prontas trás.

Logo fiquei sabendo que a garota ruiva é Fiona Régale (na história quase o tempo todo chamada de Fio). Ela largou a faculdade de direito, não exerce uma profissão, apesar de ter um meio excêntrico de sobrevivência, gosta de pintar e vive em Paris, na solidão de seu apartamento habitado apenas por ela e um exótico animal de estimação. Fio tem poucas ambições. Não dá para saber se é da natureza dela ou se foi ensinada a ser assim. Provavelmente um pouco das duas coisas já que essa questão é difícil de responder em se tratando de qualquer característica humana. Entraríamos naquele campo espinhoso meio X genética. Acredito que somos a soma dos dois e creio que é nisso que todos acreditam. Não me interessa, de fato.

Mas toco nesse ponto porque Fio teve uma infância bastante atípica e nada confortável. Filha de pais criminosos, foi criada pela avó e nem percebia que usava roupas doadas aos pobres pelo Exército da Salvação. Não, não pense que estou estragando as surpresas do livro, pois em A libélula dos seus oito anos há uma trama, sim, mas mais importante do que ela, é o lirismo com que a história é contada. Porém um lirismo cínico, se é que é possível. Ao narrar a infância (introdução da história), o autor a descreve com elementos mágicos e inocência. Quando somos jogados diretamente para o apartamento de Fio, já em sua vida adulta, impera um niilismo na forma de Martin Page narrar os caminhos, movimentos, pensamentos e tudo o mais que faz parte do mundo de Fio.

Ela é exposta a um mundo ao qual nunca imaginou pertencer. Compartilha seus pequenos prazeres e grandes resignações apenas com seu “animalzinho” de estimação e com sua excêntrica vizinha, Zora, uma ex-modelo inteligentíssima, completamente antissocial e certamente neurótica além do normal. “Além do normal” considerando que exista um normal, coisa que já sabemos que não existe e já sabemos também que somos todos um tanto neuróticos.

Definitivamente, o fato de ser um romance sobre uma garota que vive em Paris não faz dessa uma história para as apaixonadas pelo estilo parisiense de viver. Nada disso. A libélula é peculiar, assim como peculiares são seus personagens. Todos eles. Mesmo os que aparentemente “se encaixam” em seu meio social. Como sempre acontece, quando me deparo com personagens ou pessoas que fogem aos padrões, logo me vi encantada e inspirada.

O romance da Martin Page não oferece respostas, nem tampouco faz perguntas. Apenas escancara diante de nossos olhos estilos de vida que, se parecem excêntricos à primeira vista, também se mostram comuns. Lembraremos aquela amiga ruidosa sem papas na língua, nos veremos refletidos diante de vários espelhos em forma de personagens, recordaremos uma festa, reconheceremos a hipocrisia de uns e a fuga de outros (que se mesclam, no romance e na vida). E talvez tentemos buscar uma forma através da qual se possa viver, uma forma através da qual não se enlouqueça. Assim como fez Fio por sugestão de sua avó: encontrar a forma que guiará toda uma vida. E vamos também buscar nossa própria libélula, que pode ser qualquer coisa, inclusive uma livraria amigável numa cidade um pouco estranha, num dia solitário.

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