Um condenado à morte que escapou (DVD)

por Bruno Cava
Se o leitor me pedisse para indicar um único DVD para ser assistido nestas férias, não hesitaria. Um condenado à morte que escapou, obra magna do cineasta francês Robert Bresson, acabou de ser relançado no Brasil pela Lume Filmes, em cópia impecável. O longa de 1956 se baseia na história real de André Devigny, herói da Resistência Francesa, que escapou de várias prisões nazistas durante a Segunda Guerra.
Fontaine (François Leterrier) é encarcerado pelos nazistas na fortaleza de Montluc, julgado e condenado à morte. O filme se inicia com a condução dele ao presídio, ocasião em que tentará a primeira e bastante atabalhoada fuga. Torturado e confinado em solitária, promete aos algozes jamais tentar escapar de novo. O restante da hora e meia será ocupado pelo planejamento industrioso e pela execução precisa da fuga improvável de Fontaine.
Logo no primeiro plano, os letreiros anunciam que “a história será contada tal e qual aconteceu”. Robert Bresson leva a sua obsessão por simplicidade às últimas consequências. Boa parte da narrativa é elíptica, pontuando somente os acontecimentos principais. A dramaturgia reduz o drama e a emoção ao imperceptível. O espaço cênico naturalista restringe-se ao essencial – aos objetos que Fontaine instrumentalizará para o plano de fuga: uma colher, um livro, um lampião, os arames da cama etc. A todo o momento, o som intervém e “limpa” a imagem de elementos visuais. Os personagens não conversam: sussurram poucas palavras, com o máximo de objetividade. Muitos planos de dão em total silêncio e alguns ao som de Mozart.
Existe uma tradição de leitura da obra de Robert Bresson por assim dizer “espiritual”, que abusa de analogias e alegorias metafísicas. Assim, O processo de Joana D´Arc (1962) embutiria um conteúdo cardecista, enquanto O Dinheiro (1983) é pautado pelo tema da coletivização da culpa – para falar apenas de dois filmes mais recentes do diretor.
Daí também Um condenado à morte que escapou por vezes ser interpretado como metáfora da salvação cristã. O homem sentenciado à danação perscruta dentro de si uma força interior imensurável, isto é, Deus, consegue transpor os muros do mal e se salva. Contribuem à dita leitura o subtítulo bíblico “O vento sopra onde ele quer” (João, 3:8), o estilo austero e meditativo (monástico…) e as declarações do próprio Bresson, segundo o qual a evasão do tenente Fontaine “é guiada por uma mão invisível e implícita”.
Não vejo assim e não posso concordar com as palavras do cineasta.
Um condenado à morte que escapou admite interpretação estritamente materialista, que é mais fecunda do que a espiritual. Fontaine escapou não porque tinha esperança, mas porque a queria concretamente e trabalhou pra isso. Desejava-a com todas as suas forças. O personagem não perscruta dentro de si nenhuma voz divina para consolá-lo e dar-lhe forças. Desde a primeira cena, está possuído pela revolta diante da clausura. Fontaine só consegue pensar na liberdade e mobiliza todo o seu entorno nesse intento aparentemente impossível. À fatalidade imposta pelo fascismo, obstina-se contra o destino. Tentará custe o que custar cruzar a linha do possível e escarnecer da necessidade.
A austeridade implacável do estilo não significa recolhimento à interioridade, mas foco nas coisas mesmas, na sua materialidade. A câmera não cessa de mostrar as mãos do protagonista no trabalho de transformar o mundo, de negar e direcionar os instrumentos da opressão prisional, sintetizando-os para o projeto de fuga. Além disso, Fontaine não se salva sozinho. Leva um companheiro, sem o qual não teria êxito na jornada. E mais: só consegue completar o plano com a contribuição dos demais presos, com os quais aprende nas conversas de pátio. Nessas trocas de experiência, Fontaine sofistica sucessivamente as suas estratégias, ao articular os conhecimentos numa espécie de inteligência coletiva.
É impossível não se lembrar do condenado à morte do romance O Estrangeiro (1943), de Albert Camus – que, aliás, era amigo e interlocutor de Bresson. Ambos os protagonistas, Mersault e Fontaine, são inadaptados. Vivem no absurdo de uma realidade hostil que os culpa e os pretende assassinar, esvaziada de esperança que, por isso mesmo, instaura a liberdade individual. Ambos os personagens dispensam a salvação resignada oferecida pelo padre e não renunciam ao ódio. Mas existe uma grande diferença. Se o aprisionado Mersault se acalma e, feliz, “deixa-se cair sobre a cama”, Fontaine irá desmontar essa mesma cama para construir a sua liberdade com as próprias mãos.
::: Um condenado à morte que escapou, Robert Bresson, 1956, França, p&b, 99 min., 35mm. Lançado em DVD (2010) no Brasil pela Lume Filmes :::

Bruno:
Excelente sua crítica sobre o filme de Bresson. Dentre o que leio, no geral sem chegar ao fim, sobre o que se escreve acerca de cinema, você é um dos raros que de fato aprecio. Tanto é verdade que agora me sinto tentado a ver o filme de Bresson exclusivamente por causa da sua crítica.
Fernando.
Valeu Fernando, a gente se esforça. O filme merece mesmo.
Olá….
Como é possível Fountaine não ter tido esperança? Desde o início de sua clausura Fontaine traz em si a revolta, então desde o início se espera a própria liberdade, que seja por direito ou só mesmo por vontade, tanto faz. Trabalha-se para isto e, enfim, a conquista, mas nunca será uma dádiva que ele dá a si mesmo, mas que lhe é dada, uma vez que por si só tal contento não se daria a cabo. Por de traz deste desejo de ver-se livre, ali, naquele lugar onde estava, sentindo-se preso, encontra-se por certo que Fontaine não podia realizar-se por si mesmo, sentia-se incompleto, esperava e almejava algo que não tinha e que, por si mesmo, não podia realizar (daí, esperança). Aí, onde nele se vê algo de inacabado, onde existe a exigência disto que lhe é diferente, é onde se revela o seu essencial – o que lhe é próprio não se realiza tão somente por si; reclama por algo que não lhe pertence e o espera receber. E é exatamente aqui que o materialismo perde a sua força. É sobre esta dinâmica onde o existir exige pelo coexistir que se faz o leito do espírito, e, nisto, o materialismo é irrealizável, e onde o materialismo é irrealizável, o espiritual é mais fecundo.
Abraços……..Tnc
Caro TNC,
Quando me refiro a esperança, uso a palavra no sentido forte. Esperança de que, mesmo que tudo dê errado, ele vai se salvar. Que basta a intenção, o bom coração, a candidez de propósitos, que no final as coisas terminarão bem. Mesmo que a pessoa morra. Porque a esperança não se pode exaurir nesta vida. Precisa de um outro plano, em que o esperançoso culmina a existência. Desejar, por outro lado, não espera nada. Eu quero e quero agora, aqui, no sentido da terra. O desejo busca a consumação, mas também a multiplicação. Daí que a esperança tende à calmaria do perpétuo, e o desejo à fugacidade do presente. Sob a espécie da eternidade, a primeira se abstrai no plano ultraterreno, na fé do transcendente; e o segundo vai abraçar o infinito no próprio instante. Num, o mundo foi criado e constituído, e nos resta tentar salvar-se nele. No outro, o mundo é incriado, e o instante mesmo se abre numa criação permanente. O coexistir, a alteridade, está nessa abertura do instate, é por ela que eu entro e encontro o outro. Porque sou inacabado, menos por minha insignificância diante de um ser absoluto, do que por minha tendência de desejar mais do que eu sou, e assim caminhar do finito ao infinito. Não é que não me pertença. É que sou aquilo que me torno. Mais que vaniloquência, trata-se aqui de uma diferença ética entre esperar e desejar. Fontaine deseja. Daí fazer o salto da ética para a política e constituir a inteligência coletiva, em vez da escalada da moral para a religião, esperando por uma salvação prometida.
Abraço!
Olá Bruno…
Quanto ao sentido forte dado a esperança, está claro, mas note que contrasta ao sentido fraco dado ao desejo. Quando a este atribui-se a ação negando-a ao primeiro, a crítica torna-se um tanto óbvia. Desejo e esperança distinguem-se por uma questão semântica muito sutil – enquanto num se realiza por si mesmo, noutro o si mesmo é insuficiente, mas para ambos exige-se a ação, e isto independe se esgota-se em algum ultra terreno ou não. Fontaine desejou a liberdade, agiu a favor dela, percebeu que por si só não a teria, precisava receber algo que a si mesmo não podia dar, passou a ter esperança, mas não parou de agir, pois assim como não basta apenas desejar, também não basta apenas esperar. Disto segue a minha conclusão quanto ao seu essencial – o materialismo, este ser-em-si-apenas, é inoperante….
Será que por trás de cada desejo fugaz pelo instante, de abraçar o infinito e a liberdade apenas por um pequeno momento, não está o desejo de se ter ambos – liberdade e infinita multiplicação – de forma exaurida , eterna e inacabável? Um instante, quando isolado, torna-se efêmero, por sua brevidade nunca se basta, e é no retorno ao ermo que surge o desejo disto que é duradouro. Aqui fica patente o anseio por um todo que é maior e ilimitado, onde o infinitamente grande é tocado e abraçado não em alguns, mas a cada instante. Num mundo incriado o que se tem para si é somente o mundo por si mesmo criado, e este é mensurável, um ínfimo diante de um totalmente grande que é ilimitado e sem medida. O coexistir aí, cada qual encerrado em seu próprio mundo, cada qual com a sua auto-liberdade, está fadado ao fracasso. Fracassará ali, onde uma tal liberdade bloquear alguma outra só por achar que se concorrem, no exato lugar onde se tornará nítido um bloqueio da própria liberdade, o que é uma atrofia do próprio mundo que se pleiteia. Novamente aqui pode-se pensar num outro totalmente diferente, este sim completo e acabado, com nada além, concebido em pura liberdade. Este é o Mundo Criado, é o TUDO, e como tal é algo no qual a si mesmo, apenas por si mesmo, ninguém pode doar. Torna-se, então, a expressão daquele maior que se pode esperar – o ilimitado duradouro, o tornar-se UM com o TUDO, o se ver completo no que é completo, ter o infinito a cada instante e identificar-se com ele…. Ser?! O ser é a síntese de todos os domínios, então pode ser concebido como liberdade pura, neste exato UM com o TUDO, pois quando se é capaz de buscar o que vai além de si, se chega mais próximo de si quanto menos se fechar em si. Aqui, aquele fim algures, jaz traçado – tornar-se exatamente o que se é, e é por esta abertura para o ilimitado sobre a qual se completa. Fontaine espera sentir o êxtase da liberdade e do infinito, não em um, mas em cada instante. Onde ele faz sua política e constrói sua inteligência coletiva, donde, portanto, tem o seu momento de júbilo, é onde se torna patente o real necessário para tanto – a abertura o perfaz em sua essência, e se tomada ao máximo do que se dispõe (ação), então o êxtase duradouro de ambos – liberdade e infinita multiplicação – lhe será dado (esperança), esta é a promessa.
Abraços! TNC