Ilações sobre a política externa de Dilma Rousseff

-- Antonio Patriota, o novo ministro das Relações Exteriores --
por Marlon Marques
O governo de Dilma Rousseff será um novo governo ou apenas uma continuação do governo anterior? A personalidade (aparente) de Dilma é muito ambígua. Em certos momentos da campanha, ela se mostrou convicta e firme de suas posições – já em outros, pareceu uma mulher insegura e dependente. Talvez a ausência de lágrimas na posse tenha nos dado uma impressão de fortaleza e a renovação quase completa da esplanada demonstre personalidade – será que haverá novos rumos na política externa?
É sabido que política externa não ganha eleições. Ainda mais com a mentalidade terceiro-mundista do povo brasileiro, assuntos ligados a segurança, defesa, diplomacia e relações exteriores são impopulares e enfadonhos. Dilma falou pouco ou quase nada sobre o tema em sua campanha, mas sabia (e sabe) que um dos grandes pontos do governo Lula foi a atuação internacional. O governo ainda nem começou direito, logo previsões e afirmações a respeito de qualquer coisa podem soar precipitadas e enganosas – até mesmo se proferidas por renomados especialistas. Porém, o que podemos imaginar do governo Dilma sobre nossas relações no exterior?
A primeira pista a meu ver quem nos deu foi o Wikleaks, ao nos revelar um embate entre o ministério da Defesa (Nelson Jobim) e o Itamaraty. Segundo o site, Jobim teria criticado a atuação do Itamaraty e opinado sobre assuntos pertinentes a esse ministério com Clifford Sobel, então embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Em contra partida, Celso Amorim foi considerado em 2009 por um analista da revista Foreing Policy como o melhor chanceler do mundo. Não é uma opinião sobre quem deveria ou não ficar, mas o fato é que Dilma manteve Jobim e tirou Amorim.
Antonio Patriota, embora desconhecido para muitos, é funcionário de carreira do Itamaraty, com carreira diplomática sólida e expertise em órgãos internacionais de fundamental importância. Em suma, Patriota é um técnico. Em suas primeiras atuações talvez tenhamos pistas dos rumos futuros da nossa política externa. Acredito em primeiro lugar numa política de “conciliação bi-polar”, ou seja, dois pólos – China e Estados Unidos (dois gigantes parceiros comerciais). Patriota foi conselheiro político da embaixada brasileira em Pequim e embaixador em Washington – o que talvez aponte para a manutenção do crescimento comercial com a China, porém sem desconsiderar uma futura recuperação americana e um cenário favorável para novos pleitos na ONU. Patriota também tem bom fluxo no organismo máximo das relações mundiais, por ter ocupado cargos junto ao órgão.
Ignorar os Estados Unidos não é a coisa mais racional no momento, e principalmente num momento de instabilidade cambial no mundo – padronizar as relações comerciais sino-brasileiras em Yuan (em detrimento do dólar) pode parecer precipitado. O Brasil sob nova direção deve aproximar-se ainda mais do G-20 (inclusive em outras agendas) e continuar com o antigo sonho de alcançar uma posição mais destacada na ONU – principalmente junto ao Conselho de Segurança. O Conselho aliás, fora o tema de tese de Antonio Patriota na pós-graduação no Rio Branco. A principal incoerência de nossa política externa sempre foi o fato de que não podíamos querer resolver os problemas dos outros, se não tínhamos resolvidos nossos principais e estruturais problemas. Coerentemente, o Brasil já vem numa trilha internacional de sucesso a partir do segundo governo FHC (1999-2002) – uma vez que o país começou a se estruturar macroeconomicamente, realizando as chamadas “reformas”, até chegarmos ao “investment grade”. A manutenção de nosso superávit e o aumento de nossas reservas em moedas estrangeiras elevou nossa confiança e a voz do Brasil começou a ser ouvida – isso sem contar a mudança de tomador a emprestador de crédito. Na esteira, o aumento da classe média, os programas sociais de renda e habitação e, mesmo que enganosamente, os resultados na educação, fizeram com que o Brasil pudesse chegar ao Haiti na condição de país em outro patamar estrutural, não igual ao do país ocupado.
Agora que fazemos a lição de casa – e o discurso de Dilma de erradicação da miséria, a manutenção da política econômica (manutenção de Mantega e a amarração do Banco Central com a nomeação de Tombini) e social – chegou a hora de pleitearmos uma posição melhor no cenário internacional. Vejo também um afastamento do Irã – num duplo jogo com questões humanitárias e ingresso no conselho de segurança (além da controversa questão nuclear). A penetração (política, não comercial) brasileira no Oriente Médio não foi bem vista pela comunidade internacional e, dada a inconfiabilidade do Irã, talvez seja preferível jogar ao lado da maioria em favor de um objetivo maior para o país. Aí sim eu acredito numa “nova PEI (política externa independente)” – só que posterior a uma posição central, não a priori. Com Dilma também podemos esperar uma maior atuação brasileira em assuntos humanitários (direitos humanos), por sua história pessoal e por toda retórica democrática, de gênero e afirmativa de sua campanha e discursos.
Quanto à nossa região, o cenário é mais incerto. O Mercosul cambaleia, mas resiste, e o que vejo é um distanciamento do sul (embora o discurso seja de retomada, inclusive via Unasul) e um leve deslocamento para o norte do continente (Venezuela, Bolívia, Colômbia), pois para se afirmar como potência global, é preciso antes ser uma potência local – vide CELAC. Aposto que o tom conciliador e pluralista característico de nossa política será mantido, porém de forma menos evidente e incisiva do que sob Amorim.
Talvez a comunidade internacional cobre mais parcialidade do Brasil – cobre uma posição mais concreta de nossa diplomacia. Esse é o grande preço a ser pago – continuar plural e aberto ao diálogo com os países menos representativos ou alinhar-se ao centralismo dos mesmos atores principais? Esse é o desafio, entre o que se espera de nós (tanto os atores centrais como os periféricos) e o que iremos efetivamente fazer. O discurso de posse de Patriota apontou com certa indefinição para a primeira política. É claro que tudo isso não passa de suposições, exercício de imaginação e um pouco de análise em relação a leituras e observações. Cabe uma reflexão coletiva sobre os rumos de nossa política externa em vista da renovação à frente do ministério. Embora Antonio Patriota seja próximo a Amorim, sabemos que é uma nova cabeça, com algumas novas ideias. Mesmo que o assunto não seja dos mais populares no Brasil, nos cabe sempre atenção e visão crítica sobre os rumos desse setor do Estado de extrema importância para o futuro da Nação.
