O futuro e o passado não passam de delírios (José Castello)

por Vanessa Souza

Há uns dois anos fiz um curso de literatura, na Estação das Letras, com o José Castello. Na ocasião, ele comentou comigo que estava escrevendo um livro sobre seus sonhos. Fiquei interessadíssima pelo enredo.

José Castello está comigo todos os sábados tomando café. É minha leitura obrigatória de sábado de manhã: acordar, ir à banca da esquina comprar o jornal e tomar meu baldinho de café com leite – não posso chamar de xícara uma louça que abriga meio litro de líquido – e adoçante em pó, lendo a coluna que o Castello escreve para o caderno de literatura Prosa & Verso, do jornal O Globo. Quando viajo e não sigo esse delicioso hábito, sinto sua falta.

Quando soube que ele havia lançado o livro, no fim de 2010, quis logo lê-lo. Pouco encontrei ali dos sonhos do crítico literário e jornalista. Em Ribamar fiquei tocada pelo esforço de um pai e seu filho em entenderem-se, por todas as décadas em que conviveram, em uma relação de encorajamento e recuo. O menino (o próprio José, suponho), introspectivo, refugiava-se nos livros para tolerar a dor de existir. O pai não entende que o garoto prefere a companhia dos livros à das pessoas. Por essa razão, torna-se escritor.

“Meu filho não tem saída”, a frase me empurra, em definitivo, para dentro de mim. É daqui que escrevo, de meus subterrâneos. (p. 88)

São muitas as frases-faca que o pai profere ao filho, para que ele se enquadre naquilo que o progenitor julga ser a normalidade. O filho, um sujeito atormentado desde o berço, escreve para fugir, lê para perder-se das expectativas não cumpridas, dos planos traçados em que ele foge nas linhas de cada obra que devora.

Você dizia: “Meu filho sofre de si.” Sou minha própria doença, sou minha dor, você afirma. E, desanimado, lamentava: “Esse menino só se aquieta quando dorme.” (p. 107)

No dia dos pais de 1973, o garoto dá ao pai o livro Carta ao pai, de Kafka, em um período em que mal se falavam. Nunca soube se o pai o leu. O presente foi encontrado em um sebo, com sua dedicatória, décadas depois. A relação que Kafka tinha com seu pai Hermann, onde faltam muitas palavras e sobram outras, é um paralelo da relação de Castello e seu pai. Todo o livro é permeado da difícil arte de ser pai e filho, dos escritores, Castello e Kafka, e seus progenitores.

Após a morte do pai, Castello vai em busca de sua história, numa tentativa de (re)conhecer este homem, conhecer outra vez. Através de suas rememorações e das lembranças de familiares e amigos, um antigo pai vai fundindo-se a um novo pai. Um retorno à cidade onde esse pai nasceu, uma travessia para compreender ou (des)ver. Ribamar tem a tensão da escrita de José Castello, tal como as suas críticas literárias. Se só as mães são felizes, a obra sugere o quão infelizes possam ser os filhos. Sempre desconfio quando alguém, com um sorriso nos lábios, relembra sua infância, em tom saudosista e queixoso dos tempos que não voltam. Esse período de identificações, incertezas, tropeços, a carga pesada das expectativas familiares… Ser adulto é melhor, então? O tom pessimista e reflexivo de Castello faz-me titubear em encontrar uma resposta. Não sei ao certo. Só sei que crescer, parafraseando Guimarães Rosa “é muito perigoso.”

::: Ribamar ::: José Castello ::: Bertrand Brasil, 2010, 280 páginas :::
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5 comentários | Dê sua opinião

  1. Andressa 19/01/2011 em 7:16 am

    Adorei.

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  2. José Vitor 19/01/2011 em 2:29 pm

    Pai e filho! São mundos apartes, não deveria! – Rara dar opinião, recordo as minhas dificuldades de filhos: como corriam longe dos meus entendimentos? Das necessidades, da verdade real em quem vivia?
    Hoje sou pai, quis reverter os juízos, fabricar um pai corrigido. Por final descobri que tem fase crucial no caráter de cada individuo; conclusão: nem tudo nós somos, e nem somos tudo o que pensamos, tem coisas que ensinamos, têm outras que fazem parte genética, esta ninguém muda; se hoje somos filho amanhã seremos pai, no meu ver existe um momento de equilíbrio, porque a tendência obscura vive suas horas da noite, pela manhã é dia.
    Vanessa! Escrevi um amontoado de asneiras, fiz uma terapia, creio que você assim faça e depois volta para ver se não é preciso apagar tudo, se preciso desconsidere.

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  3. José Vitor 19/01/2011 em 2:55 pm

    Andressa, relendo sua critica, sinto que não deverei ter escrito acima, ou dizer simplesmente que gostei das tuas colocações sobre o contexto do Livro.

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  4. Luana Andrade 19/01/2011 em 2:57 pm

    Belíssimo! A sensibilidade de descrição da Vanessa é incrível. O devaneio de imagina-la apreciando José Castello entrelaçada de café é poético no âmago de quem lê neste momento esta apurada impressão de literatura. Considerei muito interessante a analogia com a obra de Kafka, que me embeveceu pelo tom intimista e cortante. Certamente irei ler “Ribamar”. Abraço!

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  5. diego tófoli 07/02/2011 em 12:12 am

    olá vanessa. me pareceu um bom livro, olhado de forma clínica por uma fã do autor. Vou lê-lo um dia! obrigado por escrever tão bem.

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