Lula, o sortudo

-- Lula em comício durante a campanha de 1989 --
por Diego Viana
Parece estabelecido um consenso na imprensa e nos meios formadores de opinião, ao menos do eixo Rio-São Paulo, de que o sucesso do governo recém-encerrado é fruto de um grande lance histórico de sorte, sem o qual teríamos assistido a um fracasso – retumbante, como se diz de todos os fracassos. A tal sorte consiste, segundo esse raciocínio, num aumento espantoso e duradouro (mas não sem precedentes) do preço dos insumos básicos que o Brasil exporta, de minério a grãos, de carne a frutas. Ou seja, acredita-se oficialmente que o bom desempenho econômico dos últimos anos não passa de uma rebarba da expansão chinesa.
Em que pese a verdade bastante parcial dessa leitura fundada em truísmos econômicos, ela não se sustenta quando contraposta aos fatos ou mesmo a uma breve desmontagem analítica. Não apenas já houve choques de demanda e surtos de desenvolvimento antes em nossa história, sob formas tão díspares quanto o Encilhamento e o imediato pós-guerra, sem resultados comparáveis à extraordinária transformação recente do país, como também a forma como o enriquecimento meramente exportador se apresentaria seria dificilmente comparável ao que revelam os dados sobre o desempenho econômico deste início de século. Alimentos mais caros no mercado internacional até agora só fizeram enriquecer, salvo intervenção do Estado, os produtores com escala suficiente desses alimentos – além dos atravessadores e, eventualmente, um efeito bastante limitado sobre a cadeia exportadora. O mesmo fenômeno transparece numa abordagem regional. Estados de vastas terras plantadas, rebanhos incontáveis e minas em profusão se beneficiam da boa cotação das commodities, mas áreas há tempos abandonadas pelo planejamento estratégico da elite dirigente dificilmente vêem a cor do dinheiro. A análise hegemônica é, portanto, auto-refutativa, porque quer explicar como andaram enriquecendo os mais pobres através de uma explicação de como enriqueceriam os mais ricos.
Acho, sim, que Lula pode juntar as mãos e agradecer por ter tido sorte em seu governo. Mas os bons auspícios a que me refiro são outros e pretendo demonstrá-lo. Já ouço um epígono de Nelson Rodrigues sustentando que, sem sorte, nem se chupa picolé, nem se atravessa a rua. Ora, nenhum Mainardi conseguiu atropelar o torneiro mecânico até agora, nem ficou lambuzada sua gravata. Logo, podemos concluir que um mínimo de sorte deve ter o corinthiano-mor da nação. Mas há sortes e sortes, e meu argumento é que Lula teve a maior sorte que um político pode ter: foi o homem certo na hora certa. Seu governo não poderia ter acontecido em nenhum outro momento. A história sorriu para o Brasil e posso garantir que a soja cara não teve tanta parte assim nisso.
Antes da demonstração, uma breve digressão pelo principal motivo do sucesso; se fico nessas idas e vindas, é porque não posso explicar a sorte que vejo em Lula sem esse rápido desvio. Enfim, afirmo sem pestanejar: o último governo foi particularmente bem-sucedido pelo mesmo motivo que o são a maioria dos governos e também gestões privadas que dão certo. Não se pode ignorar esse detalhe aparentemente banal, sob pena de santificar ou demonizar o que não tem nada de extraordinário senão a boa consciência do que esteve fazendo. Assim como o executivo competente ao assumir uma grande empresa em apuros, a equipe de Lula identificou de cara o problema urgente e estrutural do país que iria governar; em seguida, dedicou o principal de suas forças a combater esse problema preciso. Todo o resto veio como conseqüência, na enxurrada de melhorias catalisadas por essa alteração no início da cadeia social e econômica do país.
Por mais que ainda haja muitos a torcer o nariz para políticas sociais, em particular a redistribuição de renda, é fácil perceber que o investimento nas camadas mais pobres da população tem um retorno particularmente produtivo. Empreste dez milhões a uma grande corporação e ela se expandirá em 1%, se tanto. Dissemine a mesma quantia entre famílias miseráveis e seu simples consumo renderá um giro dez vezes maior, sem contar os ganhos de produtividade de quem pode investir na melhoria de suas condições de vida, em vez de passar todo seu tempo a tentar sobreviver. Não se fie por mim, há economistas mais qualificados que o explicam. Considere ainda o quanto pode entravar o desenvolvimento da economia a existência de um contingente de dezenas de milhões de pessoas física e mentalmente incapacitadas – fruto da fome e da exclusão social – de participar a contento da vida produtiva. O quadro se evidencia de presto.
Os jornais, pelo menos os de São Paulo, têm se esforçado para ressaltar o outro lado, o dos defeitos que teve o governo Lula, e que não foram poucos porque jamais o são, em qualquer governo. Mas de que adianta? Esse trabalho de desconstrução parece uma pregação no deserto. Quando é tão patente que um fardo pesadíssimo foi, ou melhor, está sendo tirado das costas do brasileiro, todos os senões ficam parecendo pedregulhos. O mesmo vale para as qualidades, claro. É ótimo que o ensino e a pesquisa tenham sido resgatados nos últimos anos, depois do desastre Paulo Renato. É ótimo que as políticas culturais sustentem mais o verdadeiro criador brasileiro, em vez de subsidiar a vinda dos Cirques du Soleil da vida. Mas tudo isso é ofuscado pela redução radical dos índices de miséria no país. Esse foi, sim, um grande feito, e por si só caracteriza um governo que será lembrado com estima e admiração daqui a 50 anos mesmo por muitos daqueles que hoje lhe têm ojeriza.
Comparemos o sucesso de Lula, em primeiro lugar, com o do governo Cabral no Rio. Acho que todos concordamos que o problema mais urgente e visível do Estado era a violência; poderíamos supor que fosse a estagnação econômica, mas esse é um problema de longo prazo, menos evidente no quotidiano e dificilmente sanável sem um ataque frontal à crise, justamente, da violência. Mesmo que os resultados ainda sejam incipientes e incertos, a concentração de forças no combate às quadrilhas dos morros já deu pelo menos um fruto para o cruzmaltino do palácio Guanabara: uma reeleição em que “não tomou conhecimento” do adversário: 66% a 20%.
Agora, comparando com Fernando Henrique. O grande feito do ex-presidente rubro-negro foi implementado quando ele ainda era ministro de Itamar, como se sabe. Os resultados foram imediatos e lhe valeram, de cara, a eleição e a reeleição – ou alguém duvida de que a vitória de 1998 ainda foi rescaldo de 1994? Por um breve momento, tivemos um vislumbre de tranqüilidade financeira, redução de índices de pobreza e um razoável crescimento do PIB. Mas, com isso e a partir disso, talvez até por isso, FHC perdeu a chance de ser um grande presidente. Sentou em cima dos louros e passou oito anos em reformas de pouca relevância. Privatizações mal trabalhadas, “no limite da irresponsabilidade”, como diria Ricardo Sérgio de Oliveira, exigindo correções até hoje. A Lei de Responsabilidade Fiscal, que seria ótima, não tivesse sido aprovada por um governo que pouco antes tinha cometido uma irresponsabilidade cabeluda, na forma do populismo cambial de 1998, que garantiu a continuidade do governo, mas quebrou o país. Ironia do destino, o ex-presidente e seu partido seguem até hoje vivendo da memória de 1994, incapazes de enxergar tudo que se passou desde então…
Ou seja, a era Lula acertou, sobretudo, pela consciência do ponto nodal, o nó górdio a golpear. Parece uma coisa simples, não parece? E, no entanto, poucos são os que conseguem fazê-lo. E quando o fazem, como Fernando Henrique ao recuperar com os economistas da PUC um projeto de combate à inflação que já vinha se arrastando desde a década anterior, nem sempre são capazes de multiplicar os benefícios para a economia e o país como um todo.
Mas o tema deste texto não é a competência ou a sagacidade comparativa de políticos, e sim a sorte do presidente Lula. Quero defender aqui que essa sorte também é histórica e internacional, como quer crer o consenso das commodities. E para entendê-la, é preciso se colocar diante da seguinte pergunta: por que só agora alguém conseguiu atacar diretamente o entrave desgraçado da miséria? Foi por falta de vontade? Foi por falta de dinheiro? Foi por falta de conhecimentos técnicos, como esses que agora se aplicam após o estudo de diversos modelos de redistribuição de renda em outros países? Em que pese a provável presença de todos esses fatores, creio eu que o principal foi outro: falta de poder.
Convenhamos que não é fácil implementar mudanças estruturais, mesmo que sejam óbvias, em qualquer tipo de organização. Não bastam nem a vontade, nem o trabalho árduo, nem o conhecimento técnico, nem muito menos a boa vontade dos poderosos. No mais das vezes, se a reforma em questão era algo assim tão evidente, deve existir algo bem sério e forte a obstar sua adoção por tanto tempo. Isso vale igualmente para uma empresa que esteja rumando para a falência, uma cidade engolida pela violência, uma economia enterrada em inflação ou um país esperneando de miséria. As estruturas de estagnação e decadência são mantidas e reforçadas por uma cultura, um discurso, uma lógica de sustentação. Mesmo em casos visivelmente patológicos como esse, transparece que “as coisas funcionam”, os participantes tomam o hábito de viver daquela maneira e, o que é mais grave, uma certa fatia deles ainda se beneficia disso. A idéia do “aqui é assim” é fortíssima e constitui a parte mais dura no processo de transformação de uma organização.
Em todos os casos que citei, foi preciso enfrentar essa cristalização de práticas e discursos. Voltemos a nossos exemplos comparativos. Beltrame no Rio teve de enfrentar menos os traficantes e mais a banda podre da polícia, essa que parece ter surpreendido muita gente quando “denunciada” pelo capitão, digo coronel, Nascimento. Francisco Lopes, André Lara Resende e Pérsio Arida tinham lançado as bases do que seria o Plano Real, mas o triunfo sob Fernando Henrique (o ministro, não o presidente) consistiu muito mais em afastar as pressões de quem se beneficiava com a alta inflação – verdade seja dita, quando presidente, o mesmo homem os recompensou com um retorno estratosférico ao capital de curto prazo, mas isso é outro caso.
Também é verdade que essas mudanças paradigmáticas costumam se dar quando os pilares de sustentação do tal sistema da estagnação e da decadência já estão corroídos, enferrujados, podres, precisando de um peteleco apenas para ruir. Mas isso não suprime o mérito de quem soube identificar esses momentos e agir no ponto preciso. Outras tentativas de bloquear a inflação e acabar com a violência no Rio já foram lançadas, mas falharam porque sabotadas previamente. Os beneficiários da estrutura podre ainda tinham músculo.
Agora, a Lula. Se entendemos que ele soube, junto com os quadros de seu partido, identificar e atacar as demandas mais urgentes do país que governou; se concordamos que ele teve o poder de neutralizar suficientemente, embora não completamente, as forças políticas, sociais e econômicas capazes de bloquear suas iniciativas; se está claro que as diversas alianças que fez com inimigos históricos reduziram marginalmente, mas não comprometeram no núcleo, o impacto sobre a história do país desses oito anos de “era Lula”; então onde é que insistimos em dizer que Luiz Inácio teve sorte, sim senhor?
Resposta: o ex-presidente teve sorte de não vencer alguma das três eleições presidenciais em que o derrotaram. Não tivesse chegado ao poder no início deste século, em meio ao processo pelo qual o mundo vai ficando mais redondo e o país mais tridimensional, o torneiro mecânico teria fracassado em sua missão, talvez até de maneira trágica. Mas para sustentar este argumento, preciso virar a página de um outro cenário.
A idéia de que o mundo está ficando mais redondo não tem nada de revolucionário. A “verticalidade” geopolítica, pela qual há alguns poucos países dominantes e todo o resto periférico, não está invalidada e provavelmente retomará sua força habitual dentro de algumas décadas, sob novas formas e com outros personagens, mais espalhados pelo globo. Neste exato momento, porém, todas as hegemonias estão cambaleantes. O continente que dominou o planeta por quatro séculos está em pesadíssima crise de identidade; o país que parecia surgir como império absoluto negou fogo e está tão perdido em sua perseguição a terroristas árabes quanto na luta contra a estagnação econômica; as potências mais emergentes são países gigantescos com pobreza aguda e, uns mais outros menos, instabilidade política. O exercício do poder em escala global, e ainda mais agora, com o abalo diplomático do Wikileaks, é mais penoso do que jamais, porque não está claro quem são os senhores do mundo e suas regras. A força privada, na forma das transnacionais, segue firme, mas seu canal preferencial – a influência sobre Estados e estadistas – está com interferência.
O mesmo se dá em escala nacional. As forças internas que poderiam se contrapor a iniciativas de expansão dos direitos plenos (inclusive econômicos) de cidadania no Brasil estão enfraquecidas. Eu isolaria três fatores de enfraquecimento: primeiro, o cenário internacional, já citado. Segundo, o esgotamento das fórmulas com que se mantiveram hegemônicas até então, como a segregação urbana, a manipulação eleitoral e midiática, as intervenções extra-legais no exercício do poder e assim por diante. E, paradoxalmente, até o crescimento econômico, que fortalece setores menos favorecidos, cria novas demandas e reduz a capacidade que os vencedores têm de exercer pressão sobre os vencidos, porque, com a expansão, os primeiros precisam cada vez mais dos últimos.
Durante todo o século XX, qualquer redução do abismo social foi marginal, fruto de iniciativas cujas verdadeiras finalidades eram outras, seja a industrialização, seja a ocupação territorial, seja o combate a problemas econômicos de base como a inflação. Mesmo assim, esse efeito secundário causou convulsões sociais e políticas, resultando em, de um lado, manobras governamentais que o acalmassem ao menos temporariamente e, de outro lado, golpes, massacres, rebeliões. Acho que não é o caso de entrar em detalhes da nossa história, pra lá de bagunçada e conhecida de todos. Basta fazer essa associação entre ações e reações, numa espécie de segunda lei de Newton político-econômico-sócio-histórica.
Administrar essas reações exige uma habilidade política notável de quem se dispõe a reformular as bases de um sistema instalado como o brasileiro, particularmente num país periférico como costumava ser o Brasil. Getúlio Vargas, com sua política ambígua e sinuosa, é amplamente reconhecido como o mais habilidoso de todos, mas pagou com a deposição e, mais tarde, com a vida. Mesmo assim, a bala que lhe atravessou o pijama só conseguiu adiar em dez anos a avalanche golpista. Talvez tivesse conseguido menos tempo ainda, não fosse Juscelino Kubitschek, avaliado como segundo presidente mais habilidoso, mas incapaz de fazer o sucessor. Ainda assim, foi através desse tênue equilíbrio que o Brasil conseguiu vencer etapas de seu desenvolvimento econômico trôpego e sempre ameaçado. A não ser, claro, em períodos de tirania, incluindo a do próprio Vargas; mas não é difícil enxergar que o desenvolvimento sob tiranias sempre embute e esconde tendências contrárias, manifestas somente à distância do tempo – os anos 80 que o digam.
A habilidade política de Lula parece acima de qualquer dúvida. Mesmo assim, duvido profundamente de que ele fosse capaz de realizar qualquer coisa de efetivo se fosse eleito em 1989, 1994 ou 1998. Não somente porque ao barbudo e seu partido faltava o mínimo de pragmatismo necessário para qualquer ação efetiva, mas também porque as barreiras ainda eram sólidas demais e, sobretudo, porque o poder reativo era de uma potência muito superior à que conhecemos no século XXI. (Não que hoje esteja neutralizado, frisemos sempre.) Em 2005, no terceiro ano de seu mandato, as oposições, notadamente suas vertentes mais conservadoras, acreditaram que conseguiriam neutralizar sua gestão. Queira observar que se trata de neutralizar, não de derrubar, algo que mesmo para os maiores inimigos da gestão PT já não aparecia como possível, nem desejável. Dez anos antes, mesmo cinco anos antes, arrisco dizer, não haveria hesitações: seria partir para a derrubada e ponto final – como Collor foi derrubado, não pela corrupção em seu governo, algo que nunca incomodou ninguém no Brasil, mas pelo incômodo que causou aos poderes vigentes.
Nos últimos dez anos, a América Latina, continente dos ditadores até outro dia, teve dois golpes de Estado: na Venezuela em 2002 e em Honduras em 2009. O primeiro não durou dois dias completos. Começou em 11 de abril e terminou no dia 13, com a volta de Hugo Chávez ao poder. O segundo foi mais bem-sucedido, mas causa dores de cabeça a seus apoiadores até hoje, que o diga Hillary Clinton, desmentida por Julian Assange. Num país com as dimensões e o poder econômico do Brasil, sem esquecer sua projeção midiática internacional, o risco de um golpe de Estado é enorme, sobretudo contra um presidente respeitado e bem avaliado como Luiz Inácio. Nem o regime Bush, enfraquecido por suas iniciativas militares ao redor do globo, meteria a mão. No campo interno, resta aos adversários mais irracionais espernear pela mídia e bloquear iniciativas secundárias, como a CPMF. Enquanto não se chegar a um nível de civilidade razoável nas classes favorecidas do país, não haverá oposição consciente, razoável e construtiva, com propostas alternativas de desenvolvimento claramente estabelecidas e apresentadas. Mas também não haverá espaço para reações violentas com esperança de sucesso. No máximo, como se tem visto, sugestões via Twitter de atentados contra a nova presidente.
Se Lula teve alguma sorte extraordinária, que outros líderes de sucesso não costumam ter, foi essa. Chegou à presidência quando podia ser bem-sucedido sem que o país caísse aos pedaços em golpes, atentados e manobras de bastidores. Tivemos, sim, pequenas doses dessas coisas, mas nada que se compare às crises de nossa história, nem qualquer reação que não pudesse ser debelada por respostas politicamente ágeis da situação. A explosão da cotação dos produtos primários, ao lado disso, se torna irrelevante: nas condições histórico-políticas adversas de outros tempos, o governo Lula teria sido anulado nem que fosse à força, pouco importando a conjuntura econômica, a habilidade política ou o carisma pessoal. Graças à coincidência entre a vitória eleitoral do PT e a evolução do equilíbrio mundial de forças, o Brasil pôde sacar da areia movediça o torso e os braços. Falta agora salvar o resto do corpo.
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Diego, achei seu texto brilhante, uma analise muito rica….
mas no final fiquei com a sensacao de que as polititcas distributivas adotadas por Lula soh foram possiveis agora nesse periodo historico…..sera?….ou eh uma sensacao equivocada minha do que vc queria passar no seu texto?
parece que o pais teve que passar por tanto tempo de ignorancia, pra soh agora o Lula agir no momento certo…..esse momento certo, hora certa ja estava mais do que atrasado….em vez de acharmos que o Lula foi o cara certo no momento certo, prefiro dizer que ele foi o cara certo pra validar a maxima de que nunca eh tarde pra fazer a coisa certa….
muitas antes de 2002 ja existia essa ideia de distribuicao de renda, para aquecer o mercado interno, estabilizar a economia e rumar para o desenvolvimento que o nosso atraso historico insiste em atravancar….e nao faltaram oportunidades no nosso passado para que esse salto fosse dado…
e sabemos que a turma do FHC e do PSDB era ignorante para essa ideia, que acreditavam que uma abertura dos mercados, uma elite capitalista levaria o pais rumo ao tao sonhado desenvolvimento moderno…
por mais imaturo que o Lula e o PT fossem na epoca, eles se opunham a isso e ja enxergavam que a formula para o desenvolvimento era outra….as forcas politicas nos anos 90 eram e sao as mesmas que estao ai…enfrentar as forcas antes ou depois, sei la, nesse ponto acho que pouco importa a temporalidade….
acho que o Lula daria certo sim se fosse eleito antes…..defender o contrario me parece ingenuo, parece justificar o nosso atraso, a nossa anomia diante da modernizacao, justificar a nossa demora historica e a nossa resistencia a mudanca….
prefiro pensar que Lula veio tarde….que as nossas classes oprimidas, vitimizadas, como o negro, o indio, o trabalhador rual ja estavam cansados de tanto esperar o tal “amadurecimento”, ja que a conta do nossa atraso, da nossa dependencia economica, cultural e politica era paga por eles….
abs
Felipe
em vez de dizer que ele foi
Olá Felipe, obrigado pelo comentário.
Na verdade, a questão não é de saber se o Brasil estava “pronto” ou não; temos uma tendência, é verdade, a pensar em termos de um processo de “maturação”, pelo qual um país se comporta como uma pessoa ou uma fruta, começando “verde” e ficando “maduro”. O que falta é perguntar: em que consiste essa tal de “maturidade” no caso de um país? Na verdade, eu diria que um país está sempre maduro para tudo, uma vez que consideremos as forças políticas em ação num dado momento ou historicamente. É claro que o Brasil estava “maduro” para a reforma agrária (por exemplo) em 64, aliás continua estando, mas as forças contrárias foram mais potentes naquela época e deixaram essa potência muito, muito clara com um golpe violento e veloz. Mesmo hoje, quando o Brasil está “maduro” para enfrentar a miséria extrema, ainda não apareceu alguém capaz de suplantar as forças que mantêm a estrutura agrária do país atrasada como é, embor mesmo essas forças não estejam mais em condições de promover um golpe como aquele.
Ou seja, o que me faz dizer que a orientação pelo governo Lula de suas forças no sentido da reformulação da pirâmide de renda do país veio no momento preciso em que poderia ver, por fatores internos como externos, é que pela primeira vez seria imaginável que os contra-poderes não tivessem capacidade de reagir… sobrou o mimimi da Veja e acólitos. Concordo que a equipe de FHC tinha outras prioridades, mas as prioridades fazem, sim, parte do processo. Mas sustento que nos anos 90 os contra-poderes ainda eram bastante sinistros e potentes… Lula poderia tranqüilamente ter sido defenestrado, como não foi em 2005, se tentasse qualquer coisa que saísse do script. Aliás, mesmo em 2002, a vitória e o começo da gestão exigiram concessões profundas, simplesmente para acontecer.
Bom, é isso, espero ter esclarecido o argumento.
Abraços!
Ah sim, só mais uma coisa: pensar em termos de relação de forças tem outra vantagem sobre a idéia de um “amadurecimento”: as forças podem vir e voltar, podem mudar mais ou menos em qualquer direção. Mas depois da maturidade só se apodrece…
Valeu Diego…
Compreendi melhor o seu argumento, e concordo contigo que existe um processo onde ideias e discursos dos mais diversos ganham força em detrimento de outros e talvez no caso do nosso país os anos 90 podem ter tido la seus obstáculos mais fortes pela ideologia neoliberal vigente, inicio da redemocratização e tal…
Talvez a ideologia neoliberal em decadencia e o surgimento do Lula nesse contexto com suas politicas distributivas e fortalecimento do Estado tenha de fato sido um vento favoravel. Mas só acho que devemos tomar cuidado com essa analise de momento historico mais ou menos favoravel.
Já que essa receita de distribuir renda, aquecer mercado interno, fortalecer o Estado, enfim, nao sao ideias novas, era apenas um discurso que perdeu força por outro nos anos 90, mas ja existiam na cabeça de muitos pensadores brasileiros e o Brasil só não optou por isso antes por questoes das mais diversas e complexas possíveis, mas muito também por uma simples questao de escolha dos nossos representantes.
Como você mesmo afirmou, essas forças contrarias ao desenvolvimento real do nosso pais se renovam, vão e vem, mas esperemos que elas se apodreçam de vez agora, porque depois de milhões de brasileiros inseridos socialmente nesses últimos 8 anos, acho que não há discurso que derrube essa mudança estrutural…
ainda bem
abs
Felipe
Excelente texto. Análise sóbria e brilhante.
se puder venha conhecer o meu blog e ler algumas considerações que fiz!
Um abraço!
http://pensamentosduneto.blogspot.com/
Pelo visto, críticas e análises não são desconstruções quando elogiam até o que está apresentando forrtes necessidades de ajustamentos duros. São inegáveis os problemas no câmbio, nos índices de preços, no resultado de transações correntes. Inclusive, economistas do próprio governo, ministros e institutos de estudos e pesquisas, não têm questionado que o PIB recuará dos cerca de 6% a 7% em 2010, para cerca de 4% a 5% em 2011. O ministro da Fazenda e o presidente do BC anunciaram a necessidade de medidas tendentes a ajustar o câmbio, sem descartar cortes de gastos e investimentos. A própria presidente anunciou que vai trabalhar para erradicar a miséria, melhorar a educação, saúde e segurança. Aspectos sempre colocados como definitivamente equacionados, senão resolvidos, pelo governo anterior de 2002/2010. E daquele, a própria atual presidente fez parte e foi apresentada como a principal responsável pelo alcançado no período. Se, agora, os planos e projetos vão na direção dos ajustes do que fora dado como resolvido, como tratar isso como desconstrução? Não teria sido erro de avaliação? Não teria sido o sucesso apenas propaganda? Logicamente podem ter havido aspectos favoráveis. Mas, como os ajustes demonstram, há necessidades de melhorias, de correções de rumos. O que falta é a comunicação adequada disso aos cidadãos. Está cada vez mais claro que a expansão fiscal, a oferta de moeda e a expansão do crédito podem ser apontados como causas da inflação. O aumento de alimentos e outros bens, são consequência e não causa da aceleração dos preços.
Eu não entendo por que algumas pessoas têm tanta dificuldade de compreender o argumento central de um texto! (Mentira, entendo sim, é que elas querem criticar a qualquer custo, mesmo sem conexão com o tema.) Não está em questão a gestão pontual da macroeconomia, mas a escolha de uma prioridade e ataque a ela, associada à presença de forças contrárias que precisam ser contornadas por quem quer atingir o objetivo. Câmbio, inflação e crescimento são tema de outros textos, outros, outros, não este!
Em todo caso, algumas correções: os economistas não “admitem” que o crescimento vai passar de 7,5% no ano passado para 4% neste ano. Os 4% são o objetivo, não à toa, índice considerado ideal para o crescimento sustentado do Brasil. Está longe de ser um drama ou uma tragédia. Ao contrário, nos anos 90 era um índice loucamente comemorado… Que mudança de perspectiva, não? Seja como for, se os institutos de pesquisa não questionam que isso vai acontecer, quer dizer que eles confiam plenamente na competência da equipe econômica… mas aí eu já lavo minhas mãos.
Ah, outra coisa: crítica, análise e desconstrução não são sinônimos, não sei por que é tão escandaloso que uma análise não seja uma desconstrução… ou uma crítica.
- Equacionados? Resolvidos? Onde você viu isso?!?!?! Cada uma que me aparece…
- Não é apenas propaganda porque as pessoas não são assim tão permeáveis quanto às vezes cremos à propaganda. Veja a matéria da Época da semana passada sobre uma família entrevistada em 2002 e 2010 e tente reafirmar que o sucesso é apenas propaganda…
- Você diz que “Está cada vez mais claro que a expansão fiscal, a oferta de moeda e a expansão do crédito podem ser apontados como causas da inflação. O aumento de alimentos e outros bens, são consequência e não causa da aceleração dos preços.”, o que demonstra que você não tem acompanhado a evolução dos índices. As primeiras acusações pela inflação recaíram sobre a expansão fiscal (que tem, sim, culpa, mas não vamos esquecer que 2009 foi um ano de recessão mundial e a expansão fiscal foi uma política keynesiana, aliás bastante bem sucedida, considerando os resultados em outros países industrializados). Agora, finalmente as notícias começam a mostrar também o peso da alta nos preços básicos, alimentos em particular. Ou seja, não está “mais claro” coisa nenhuma, está é “menos claro”, já que existem outros fatores a considerar agora, quando antes havia uma leitura única.
Por sinal, a pressão inflacionária sobre a economia hoje é muito menor do que era há dez anos, basta ver que os juros caíram da casa dos 35% para conseguir uma inflação de 5% e chegaram à casa dos 11, 12% para conseguir uma inflação de 4%…
Mas reitero: O TEXTO NÃO É SOBRE MACROECONOMIA!
A elite “cafeeira” tem sentido muito forte os últimos 8 anos de sua existência.
O escrito não é sobre macroeconomia. Há concordância. Há aspectos que compõe um padrão de avaliação macro, que, no texto, serve de pano de fundo para a análise política, da evolução política. Há citações de aspectos como a explosão de preços dos produtos primários, CPMF, desenvolvimento e outros aspectos de raiz macroeconômica, todos parte do que se avalia hoje. E social, como as citações sobre a migração de classes, também sob estrita avaliação. Não trata-se de crítica a qualquer custo. E nem de elogios a qualquer custo.
Não é a questão que o lula teve sorte,é que o FHC deixou tudo arrumado e o lula apenas seguiu o que foi deixado,mas governar que é bom ele não governou,podemos ver que ele ficou 8 anos no poder e não fez nenhuma reforma,do jeito que o outro deixou está, como seria se o lula não achasse nada arrumado? Sera que ele ia conseguir fazer alguma coisa? Eu acho que não pois não tinha nem experiencia de governo e nem estudo para governar,qualquer um que entrasse la iria dar certo,talvez ele teve a sorte mas pra mim ele não passou de um camelô!
Jorge Rodrigues: Vai ler PLACAR,GIBÍS e outras tolices…
Jorge Rodrigues, às vezes a obviedade não passa pela garganta dos futebolistas. Qualquer coisa que se distorça para alojar o Lula num bom discurso, trava diante de uma terrível palavrinha de seis letras: Sarney.
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