Grandes Questões da Ciência
por Otávio Dias
Livros de divulgação científica são raridade em nosso país e encontrá-los em livrarias sempre gera alguma surpresa. Quando jovens, perguntas de todos os tipos transbordam de nossas mentes ativas e ainda não limitadas pelo meio – o riso alheio e/ou a obrigação social de ganhar dinheiro –, perguntas essas que acabam por ganhar respostas seculares, costumeiramente com alguma roupagem nova e indicando contextos de um passado. Crescemos assim.
Grandes Questões da Ciência, organizado por Harriet Swain e editado no Brasil pela José Olympio Editora, se propõe a levantar vinte questões que “têm a virtude de ser perguntas que estão na cabeça de todos”; as perguntas são abordadas em dois níveis diferentes, em dois textos de aproximadamente sete páginas cada: no primeiro texto uma abordagem histórica é realizada e, no segundo, algum tipo de resposta, fundamentada no que existe de mais atual em nossa ciência – que, afinal, está sempre em desenvolvimento – é proposta. Interessante.
As perguntas abrangem áreas bastante diferentes do conhecimento e (posso falar apenas por mim, agora) não se fizeram presentes, todas, em minha vida. Nunca me perguntei, por exemplo, “O que causa a agressão?” ou “Como evoluiu a linguagem?”
Falta de curiosidade minha, claro, o que não significa que não são perguntas válidas, importantes. Quanto à ideia de ciência que norteia o livro, senti um pouco de mal estar, basicamente porque à ciência foi dado o significado mais amplo possível, fugindo dos critérios popperianos que alguns cientistas usam. Ciência, no que diz respeito a esse livro, abarca todo o conhecimento humano. Seguindo os critérios popperianos, não vejo relevância científica para perguntas como “Deus existe?” e “Qual o significado da vida?”.
Nunca conheci pessoalmente um físico que desejasse verificar a existência de um deus, independente de sua crença, quer seja como ateu fervoroso ou religioso fervoroso. Todos os dados que já coletamos até mesmo poderiam indicar uma resposta em uma ou outra direção, e às vezes algum pesquisador usa tais dados pra falar sobre sua crença – como o faz John Polkinghorne em seu texto que pretende dar uma resposta sobre a existência de Deus –, mas todos os pesquisadores que conheci estavam preocupados em entender pequenas questões e não apresentam suas linhas de pesquisa como “busca pelo criador” (melhor dar um desconto aos físicos ficcionais de Anjos e Demônios, controladores de laboratórios secretos, como o do menino Dexter).
Os textos, curtos, não permitem que os temas sejam abordados com muita profundidade; muitas das respostas às perguntas passam por questões que pouco têm de científicas – de novo, no sentido popperiano –, detendo-se em argumentos políticos e éticos, fazendo do livro uma espécie de alerta sobre nosso próprio comportamento. Por exemplo, encontramos no texto introdutório de Caroline Davis para a questão “É certo interferir na natureza?”:
Os temores sobre as novas descobertas científicas têm certo fundamento. Por exemplo, os cientistas consideraram tão seguro o sedativo talidomida, que ele foi receitado a mulheres grávidas para controlar os enjoos matinais. O primeiro bebê da talidomida nasceu em 1956, e o medicamento foi retirado do mercado em 1961, depois de ser vinculado a graves defeitos congênitos, altos índices de abortos espontâneos e uma taxa de mortalidade estimada em 40%, antes de as vítimas completarem um ano de idade.
No entanto, outras tecnologias, inicialmente desdenhadas e rejeitadas pela opinião pública, revelaram-se benéficas e passaram a ser largamente aceitas pela corrente dominante. Em 1798, Edward Jenner descobriu que inocular as pessoas com um pequeno preparado de varíola bovina (vaccinae, do termo latino correspondente a vaca, vacca) imunizava-as contra a varíola. Essa “vacinação”, como veio a ser chamada, salvou muitos milhões de vidas e, em 1980, levou a Organização Mundial da Saúde a declarar que a doença for a erradicada. Entretanto, na época de sua descoberta, houve cartunistas que publicaram tirinhas mostranddo cabeças de vaca brotando do corpo de pessoas que tinham sido vacinadas; houve quem temesse receber injeções de um material proveniente de vacas, dizendo não querer ser tratado com substâncias vindas das criaturas inferiores de Deus. Quando a vacinação tornou-se obrigatória, em 1853, houve passeatas de protesto.
Essa linha de argumentação é retomada em outros momentos do livro — afinal, para acabar com a fome é necessária a alteração da natureza, de alguma maneira; afinal, ampliar as áreas cultiváveis é, por si só, uma alteração no meio ambiente. Alguns textos se sobrepõem uns aos outros, cada qual escrito por um jornalista ou especialista diferente, e há questões que se relacionam, abarcando áreas comuns do conhecimento. Aliás, este livro será melhor lido se de forma não linear, uma questão por vez sem a ordem sugerida pelas páginas, justamente porque ler respostas a duas perguntas diferentes pode causar algum incômodo, dadas as sobreposições e repetições.
É uma obra que serve bem a quem faz perguntas. As respostas dos especialistas nem sempre são claras e, freqüentemente, entram em foco linhas de pesquisas por eles escolhidas – a quantas teorias diferentes eles poderiam se dedicar em sete páginas? Não é um demérito, se os textos forem lidos com o devido ceticismo (nenhuma resposta é final). De qualquer forma (e essa é uma de suas grandes virtudes), cada pergunta vem com uma pequena bibliografia indicada, apontando novos caminhos de leitura aos mais interessados e deixando clara a falta, em nosso país, de literatura científica. Este Grandes Questões da Ciência, aliás, pode até mesmo ser tomado como exemplo disso: lançado no exterior em 2003, chegou ao nosso mercado há poucos meses. Tarde, verdade, mas ainda parte de uma iniciativa importante.
::: Grandes Questões da Ciência ::: Harriet Swain (org.) ::: José Olympio, 2010, 384 páginas :::
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