Tédio e anseio de viver misturam-se em Encontros e Desencontros (DVD)
por Juliana Dacoregio
Encontros e Desencontros (Lost in Translation – 2003), escrito e dirigido por Sofia Copola, não é um filme que se possa resumir ou fazer uma única leitura. Claro que só os filmes muito rasos de significado são passíveis de serem parcamente resumidos. Não é o caso de Encontros e Desencontros. Mais que isso: quanto mais você o assiste e quanto mais maduro o faz, maior é o mergulho nos personagens.
A primeira e mais óbvia impressão é a de que é um filme sobre solidão. Charlotte (Scarlett Johanson, em uma de suas melhores atuações) é uma jovem de 22 anos, recém-graduada em Filosofia que ainda não sabe ao certo que rumo dar a sua vida. Passa os dias sozinha em um quarto de hotel em Tóquio, enquanto seu marido, fotógrafo, cumpre compromissos de trabalho, que são muitos e fazem com que Charlotte caia no tédio e falta de motivação. Quando ela sai do quarto para passear pela cidade é como uma turista apática, nada deslumbrada com a agitação de Tóquio. O próprio fato de ela estar acompanhando o marido numa viagem de trabalho já revela o quanto ela está num período de incertezas com relação à carreira. De fato, ela encontra-se naquele ponto da existência que mais parece uma espera, do tipo “quando a vida vai começar de verdade?” Apesar de ,superficialmente, parecer que Charlotte sofre de falta de vontade de viver, não é exatamente o caso. O que a personagem de Johanson transmite é um anseio tão grande e não satisfeito pela vida, que ela começa a entregar-se ao desânimo.
Bob Harris (Bill Murray) encontra-se em situação parecida: também preso num quarto de hotel, entediado e sem motivação para divertir-se. Porém, Bob já tem o tal “rumo na vida”. É ator, casado há 25 anos, pai de dois filhos e está no Japão a trabalho, o que não o livra da apatia e do cansaço de fazer sempre as mesmas coisas, sobretudo o tipo de trabalho que o levou à Tóquio: gravar comerciais de uma famosa marca de uísque. As semelhanças entre Bob e Charlotte são grandes. Mas, se por um lado, o tédio de Charlotte origina-se da vontade frustrada de sentir que sua vida começou de fato, Bob sabe que seu destino está traçado e que vai continuar fazendo sempre as mesmas coisas, por mais que se revolte silenciosamente contra elas.

O encontro entre Charlotte e Bob não é forçado, ou seja, não acontece na hora, nem da forma que esperamos. Eles vão aos poucos adquirindo intimidade e, por terem em comum a inteligência e um certo humor irônico, encontram um no outro a companhia ideal para as horas ociosas. E o que antes não acontecia para Bob e muito pouco para Charlotte começa a ocorrer: eles passeiam pela cidade, encontram amigos, divertem-se, brincam. Até mesmo a insônia, que acometia ambos, é sanada.
Todo o filme se passa numa atmosfera calma, onde os acontecimentos desenrolam-se naturalmente, sem pressa. Sofia Copolla faz a escolha acertada de não seguir regras de roteiro ou direção e de não entregar de bandeja a caracterização dos personagens. Por isso, o público tem a possibilidade de crescer com o filme e perceber nuances diferentes cada vez que o assite.
Para quem não assistiu é uma boa oportunidade de ver Scarlett Johanson antes dos papéis de mulheres fatais, e sim personificando a “girl next door” (apesar do óbvio – mesmo com as roupas simples e a postura intelectual-introspectiva, é impossível ela não ser estonteante). Além da delícia que é ver Bill Murray usando seu talento de comediante num papel dramático, e nos fazendo rir e nos identificarmos com o tédio de Bob Harris.
E quem já assistiu, experimente repetir a experiência. Talvez você se surpreenda descobrindo novidades sobre os personagens e sobre você mesmo.
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Curiosidades:
- Sofia Copola, filha do diretor Francis Ford Copola, tentou a carreira de atriz, mas sem muito êxito, abandonou-a para dedicar-se à carreira de escritora, roteirista e diretora.
- Lost in Translation (nome original da produção), por pouco não foi distribuido no Brasil como “Perdidos em Tóquio”, o que daria um tom de comédia boba. Felizmente, Encontros e Desencontros foi o título escolhido que remete muito bem ao argumento do filme tanto quanto o título em inglês.
- Por pouco Encontros e Desencontros não ficou no papel. De acordo com o site IMDb, Sofia Coppola começou as filmagens do longa no Japão sem ter firmado um contrato com Bill Murray. O ator, que costuma preservar seu anonimato nos intervalos entre seus trabalhos, andava sumido há algum tempo e Sofia passou oito meses procurando-o: “Eu ligava todos os dias, estava como uma louca. Sempre que ele me ligava, meu telefone tinha algum problema. Na última vez que conversamos, ele disse que estava inclinado a participar do filme e entendi isso como um sim. Fui para o Japão para iniciar a produção e meu agente me questionou, porque se ele não viesse, já estávamos lá, gastando dinheiro, sem um plano B. Felizmente, ele apareceu”, conclui a diretora.
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Encontros e Desencontros (Lost in Translation – 2003)
Direção: Sofia Coppola
Roteiro: Sofia Coppola
Elenco: Bill Murray (Bob Harris), Scarlett Johansson (Charlotte), Giovanni Ribisi (John), Anna Faris (Kelly)


Olá, Juliana!
Legal o seu comentário sobre o filme! Muito interessante a sua escolha… Vc tem razão: o filme merece ser revisto ou é pra ser visto mais vezes.
Foi muito bom ler o seu comentário. Eu vi o filme há poucos dias e fiquei realmente encantada com o trabalho da Sofia Coppola. Bill Murray está impecável. Tbm prefiro a versão “Encontros e Desencontros”. É no desencontro deles em Tóquio (com a agitação, as luzes, o brilho, as extravagâncias, a língua diferente, a diferença) que rola o encontro entre eles – um belo encontro, diga-se! Acontece por acaso, com ambos tentando achar uma saída para o desencontro deles naquele lugar…diferente. Um desencontro que suscita em cada um outros desencontros… Eles se descobrem e aproximam-se com delicadeza e o encontro vai além deles mesmos. Como vc diz, um encontro não marcado. Dado pelo acaso. E o acaso costuma ser generoso, ou não?
Bacana o seu texto. As curiosidades tbm bem legais. Interessante o desencontro no percurso da cineasta, não é? Ainda bem que ela acabou se encontrando – pra nossa sorte!
Oi Viviane!
Valeu pelo comentário. Encontros e Desencontros é mesmo um filme que arranca nossas mentes da zona de conforto, não é? Nos pegamos refletindo sobre os diferentes tipos de rumos que uma vida pode tomar e até passamos a compreender melhor as diversas formas de expressar amor. (Porque é bom lembrar, creio que os casais – casados – do filme amavam-se realmente apesar de estarem passando por fases difíceis.)
Outro “efeito colateral” após assistir Lost in Translation é o desejo de viver, suplantar o tédio, não com grandes feitos, apenas deixando-se levar um pouco mais pelos acontecimentos e não tendo medo de conhecer novas realidades. Conhecer templos budistas, correr por entre máquinas de jogos e cantar em karaokês com surfistas japoneses.
Sorte nossa mesmo que Sofia conseguiu encontrar-se na carreira de roteirista e diretora e nos presentear com produções como esta.
Abração