A mãe de Evandro Affonso não se matou sem dizer adeus

-- Evandro --

por Luiz Biajoni

A Associação Paulista dos Críticos de Arte elegeu o romance Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus (Record, 2010), do mineiro-paulistano Evandro Affonso Ferreira, o melhor romance do ano passado. Como li o livro no final do ano, pensei em resenhá-lo. No mesmo momento, surgiu a possibilidade de uma entrevista com o autor. Fiz um mix.

Ferreira é um dos prosadores mais interessantes do País. Já no primeiro livro, lançado quando completava 55 anos, mostrava seu interesse pela linguagem. Grogotó apresentava contos curtíssimos que davam voz a pessoas comuns, que contavam coisas geralmente corriqueiras, com suspiros, engasgos, gaguejos, titubeios, respiros, neologismos e palavras incomuns. Ferreira, que foi dono de sebos, é um colecionador de palavras que encontra em livros. Estabeleceu, assim, um estilo próprio; coisa rara e difícil. O estilo se refinou nas obras seguintes: Araã!, Erefuê, Zaratempô e Catrâmbias.

Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus quase não tem história: acompanhamos esse senhor de 80 anos num interminável domingo chuvoso – ou em vários domingos igualmente molhados e tediosos – enquanto observa freqüentadores de uma confeitaria num shopping. Ele espera a morte e escreve um livro – este, que estamos lendo. Apresenta-nos flashes da sua vida ruim, a morte da mãe suicida, que era bêbada e fã da Billie Holiday.

Em Stardust Memories, Woody Allen faz o papel de um diretor de comédias que decide fazer filmes sérios e existenciais. Vive encontrando fãs que lhe dizem: “Adoro os seus filmes, especialmente os primeiros: são engraçados”. É mais ou menos o que eu diria a Evandro Affonso em relação ao seu livro mais recente.

Sim, o romance tem frases fantásticas (exemplo: “Morte tem dessas surpreendências: envia desfecho de acordo com o pretérito de cada um”). A impressão que tive, no entanto, é que o livro não passava disso: um grande apanhado de frases fantásticas, mas que não se sustentavam como romance. A voz do narrador-Evandro parece cansada; a melancolia não é interessante, não causa identificação ou compaixão; o enredo parece se arrastar a partir da metade, quando percebemos que a coisa não vai avançar muito além do que estamos a ler: um grande e mal-humorado lamento. O fato de não ter gostado do livro, porém, não diminui suas qualidades ou a importância do autor: Ferreira é um grande lapidador de frases, dono de ouvido absoluto para a musicalidade dos vocábulos.

Na entrevista abaixo, ele fala do livro, de suas preferências literárias e concorda com a falta de humor neste Minha Mãe…. O fair-play mostra que ele é maior que a maioria dos escritores, que só buscam elogios.

*

Amálgama: Qual a motivação inicial para Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus?
Evandro Affonso: Modo geral minha motivação sempre cai naquela fala do Amanuense Belmiro que horas tantas diz que a literatura é sua salvação. Abro aspas: Venho da rua deprimido escrevo dez linhas torno-me olímpico. Em verdade vos digo: Quem escreve neste caderno não é o homem fraco que há pouco entrou no escritório. É um homem poderoso, que espia para dentro, sorri e diz: Ora Bolas! Fecho aspas. Veja que coincidência: meu primeiro livro chama-se Grogotó – cujo significado é Ora Bolas! Mas este livro específico – Minha mãe se matou sem dizer adeus – surgiu por acaso, fruto de meu livro anterior, ainda inédito, escrito na rua: Vim Vi Perdi. Escrevendo-o surgiu a ideia de escrever um próximo sobre o pessoal que frequenta o Shopping Higienópolis, que frequenta uma Confeitaria deste shopping. Resolvi falar da decrepitude da vida. A mãe suicida surgiu por acaso – nem me lembro direito.

Há, no romance, algo da sua própria vida? Quanto do narrador octagenário é você?
Sempre há. Madame Bovary sou eu – diria Flaubert. Tenho 65 anos, dois filhos, já publiquei alguns livros. E minha mãe não se matou. Já o narrador tem 80 nunca terminou um livro nunca teve filhos nunca amou nunca foi amado. Personagem viveu digamos um pouco pior do que o escritor. O que não significa grande coisa.

A velhice, a loucura e a decrepitude, o declínio do corpo, as memórias de um tempo passado, são elementos que alimentam sua literatura. Antes, porém, parece que havia mais humor. Em Minha Mãe… quase não há espaço para a graça. Que houve?
Será que a aproximação da Morte não deixa tudo meio nublado demais? Você tem razão: neste livro parece que o humor sumiu. Não havia percebido isso. Bem observado. Isso não é bom. Acho que levei a Morte muito a sério.

Já disseram que seus enredos são desculpa para exercício do seu estilo. Qual a importância da história – ou da estória – num romance? Em outras palavras: a forma é mais importante que o conteúdo?
Não penso mais assim não. Fiquei nos meus três últimos livros que assinei com a Record (dois ainda inéditos) mais reflexivo, menos preocupado com a forma. Abandonei meu dicionário particular (quase 3 mil palavras sonoras que compilei ao longo dos anos em que fui livreiro).

Enquanto lia seu livro, pensava em Malone Morre, de Beckett. Você acha que em termos de “mote” não há muito mais a se criar, basta apenas “reinventar modos de contar”?
Pode ser. Mas minhas referências – os deuses do meu Olimpo são outros. Gosto muito de Bruno Schulz, de Cornelio Penna, de Samuel Rawet, de Graciliano Ramos, de Hermann Broch – assim por diante. Mas se você acha que tem Becket no meio tudo bem – respeito sua opinião. Foi sem querer. Pensando bem não há nada novo sob o Sol não é mesmo? Tudo muito Eclesiastes – digamos assim.

As referências literárias também abundam em Minha Mãe…. Algumas referências são nominais, outras veladas. O narrador sempre cita um “autor de Praga” que, deduzo, seja Kafka. Quais são suas referências pessoais, quais os autores que reverencia? Acompanha a produção atual?
Como você pode ver antecipei a pergunta. Mas leio muito. Muita Mitologia, muita Filosofia, muita literatura. Sou ex-dono de sebo. Vivia lendo o dia todo. Fali duas vezes. Quando escrevo me divirto mais lendo outros livros. Recentemente li quase tudo sobre Erasmo de Rotterdam: meu mendigo-personagem, que está no novo livro, sabe muito sobre o autor do Elogio da Loucura. Divirto-me assim. Para esquecer que a vida é ruim.

Sua produção é pensada? Existe um “Projeto Evandro Affonso”?
Não. De jeito nenhum. Escrevo para não me matar. Relaciono-me com a literatura da mesma forma que me relaciono com Deus: não acredito, mas vez em quando rezo.

Minha Mãe… ganhou o prêmio da APCA para romance. Esperava por isso?
De jeito nenhum. Viu como a literatura caiu de nível? (he he)

De todos os seus livros, qual o seu preferido?
O Mendigo Que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam – que sairá em março de 2012 pelo Record. Acho disparado meu melhor livro.

*


::: Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus ::: Evandro Affonso Ferreira :::
::: Record, 2010, 128 páginas ::: Compre na Livraria Cultura :::


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