A autoridade da opinião

-- Isaiah Berlin (1909-1997) --
por Maria Ivonilda
Li um livro chamado O sentido da realidade, por indicação do editor deste site. O autor do livro é Isaiah Berlin, que eu deveria já conhecer de forma mais aprofundada, uma vez que ele escreveu bastante sobre a liberdade, e liberdade é a temática que mais me interessa na filosofia.
O livro é, na verdade, uma coletânea formada por nove ensaios independentes – a maioria formada por textos apresentados em conferências -, mas que giram basicamente em torno das ideias e as formas com as quais elas passaram a ser apropriadas ao longo da história. Cada capítulo mereceria no mínimo um texto para servir como comentário, mas também é interessante arriscar um resumo com as conclusões às quais se chega no final da leitura de um livro como este, principalmente quando se toma como ponto de partida alguns elementos que se repetem nos ensaios.
Isaiah Berlin parece, antes de qualquer coisa, um visionário, alguém que não precisa realizar estudos, tomados aqui no sentido de pesquisa realizada com base em padrões acadêmicos, para tecer comentários precisos e relevantes acerca do que se passa no mundo.
Logo no primeiro ensaio, o autor afirma justamente a deficiência presente em um tipo de pensamento que obteve lugar na história: aquele que julga conhecer a realidade através de categorias que não existem de fato, ou se existem, ninguém até agora conseguiu prová-las. Uma das facetas dessa deficiência consiste na ideia de que existe uma chave de compreensão para os eventos da história – chave esta já existente ou criada. Logo em seguida, o autor afirma a importância daqueles que fizeram descobertas “genuínas” nesse âmbito, como Marx, Herder, Hegel, Durkheim, Freud, entre outros, mas defende que, apesar da legimitidade destas e de outras descobertas importantes e transformadoras, a chave de compreensão não nos é acessível. Berlin alerta, sobretudo, para o perigo de captar o sentido da realidade através de leis, regras ou fórmulas, que, dependendo do contexto, podem ser utilizadas de acordo com os mais diversos propósitos.
A questão não é, contudo, abandonar a perspectiva, não se trata de não torná-la pública por pensar que o seu uso pode se tornar pernicioso, mas sim de ter cuidado com essas generalizações que, de acordo com o autor, estão perto demais de nós e demasiado manifestas.
Segundo Berlin, “historiadores e homens de ação buscam suas informações onde podem. Métodos científicos, estatísticos e detalhe biográfico microscópico – nenhum deles é irrelevante, todos podem aumentar o sentido do que pertence a qual lugar. Certamente, sem um mínimo de informação completa deste tipo não há nada, só ignorância. Entretanto, o sentido da realidade ou de história que nos capacita para detectar as relações existentes entre coisas e pessoas reais é o de familiaridade com singularidades, ao passo que toda a teoria lida com atributos e entidades idealizadas – com o geral.” (BERLIN, 1999, p. 59) Berlin quer dizer com isso que há muito mais que os dados na história e isso se comprova pelo fato de que há uma ligação entre coisas e pessoas, isto é, entre objetos e interesses, bem mais complexa do que geralmente se pode entender a partir de um conjunto de regras.
Para o autor, acima de tudo, o que está em jogo é uma questão política, como se pode constatar com os capítulos que se seguem. E quando ele fala de “singularidades” presentes nas referidas relações, faz alusão aos mais diversos elementos, tais como sagacidade nos estadistas, habilidade política, etc. – elementos que muitas vezes são “descartados” em análises de situações e eventos da história. A verdade, defende Berlin, é que muitos pensamentos foram produzidos sem levar em consideração esses elementos, que são concretos. Na visão do autor, os racionalistas do séc. XVIII foram alguns dos que ignoraram a existência de uma lacuna entre essa criação de fórmulas – a generalização – e os eventos concretos. Em resumo, de acordo com Berlin, a ideia geral de que podem ser oferecidas respostas – a partir da formulação de regras – que servem tanto para o passado como para o futuro, indistintamente, é que criou concepções errôneas tanto na teoria quanto na prática. Segundo ele, enormes equívocos foram criados a partir disto, e que custaram a vida, a liberdade e a felicidade de muitos seres humanos inocentes.
A leitura que eu faço dessa obra está pautada na ideia de que o autor tem cuidado em analisar o lugar da autoridade da opinião na sociedade. Autoridade esta proporcionada pela perda de senso crítico e, em última instância, senso de realidade. Como bom liberal, parece evidente para o autor que as conseqüências mais drásticas estão mesmo radicadas no campo sócio-político, mais especificamente, quando se perde o bom discernimento político e isto acaba por interferir em determinado contexto social. Berlin defende que “o ingrediente indispensável para o bom discernimento político é o conhecimento semi-instintivo destas profundidades maiores, o conhecimento das conexões intricadas entre a superfície exterior e as outras camadas, mais remotas, da vida social ou individual.” (Ibidem, p. 80)
A partir daí, Berlin passa a dissertar a respeito da diferença entre a racionalidade que pauta o método científico e a racionalidade das demais esferas, como a política e a história. Segundo ele, a racionalidade é caráter daquilo que mostra bom discernimento, é aplicar métodos em um campo e os ver funcionarem bem a partir disto. Porém, há uma diferença, e ela consiste justamente na ideia de que o que pode ser racional para determinada área pode ser utópico para outra, e vice-versa. É nesse sentido que se enxerga uma necessidade de abertura para o diálogo com o outro, a necessidade de circulação de ideias: para garantir que não haja uma autoridade da opinião que desemboque em um autoritarismo. A partir daí surge também no texto um esboço do que seja a sua concepção de liberdade negativa; todavia, dada a sua importância (talvez o ensaio mais conhecido de Berlin seja “Dois conceitos de liberdade”, no qual ele se dedica a estabelecer a diferença entre liberdade positiva e liberdade negativa), convém dedicar um texto a essa ideia em outro momento.
Aqui cabe mencionar ainda a ideia do autor a respeito da postura filosófica. Para ele, a filosofia é como um intermediário que torna possível o diálogo; uma tentativa, e sempre foi uma tentativa, de encontrar modos de pensar e dialogar, revelando semelhanças até então despercebidas e diferenças até então não observadas entre os mais diversos temas. Segundo o autor, é uma “tentativa de causar uma transformação de perspectiva suficiente para alterar radicalmente atitudes e modos de pensar e expressar e, deste modo, resolver ou dissolver problemas, redistribuir temas, reformular e reclassificar conexões entre objetos, e transformar nossa visão do mundo.” (Ibidem, p. 100)
A filosofia, para Berlin, é essencialmente aquela que rompe, liberta, subverte. Ainda para ele, o fato de que ela pareça desconectada de temas concretos não significa que seu poder transformador, sua transformação final, seja nula.
É por isso que, em filosofia, somente a excelência é útil, somente os intelectos ousados, incomuns, que possuem o que Russell uma vez chamou de capacidade de dissociar ideias – em vista da dissolução de conceitos que viajam tradicionalmente em pacotes amarrados -, de questionar verdades tão familiares, tão completamente indiscutidas, tidas como corretas, que a mera sugestão de que pudessem ser analisadas, de que seus ingredientes pudessem ser tomados separadamente, dispara verdadeiras ondas de choques elétricos em toda a estrutura do senso comum corriqueiro ou do pensamento filosófico tradicional. (Ibidem, p. 108)
Muitos podem defender que isso já foi dito e reafirmado por outros autores que compuseram a história da filosofia, o que pode até ser verdade, mas isso não impede que passemos a ler autores como Berlin. Principalmente pelo tipo de intelectual que ele foi. Um pensador anti-sistemático, cuja filosofia pulsa em cada página de suas obras, o que impede sua palavra de ser enclausurada e faz com que ela passe a fazer parte da história das ideias – ideias, no plural, pois, assim como a história, a filosofia não estacionou no tempo e isso só foi possível graças ao fato de ela ser plural.
Como não podia deixar de ser, Isaiah Berlin também consegue incomodar da mesma forma que nos atrai para os seus escritos. Alguém que tem uma tendência mais conservadora pode se sentir tentado a ler o autor não só pelo conjunto do seu pensamento, como também pelos detalhes, como sua leitura crítica de Marx. Mas Berlin, justamente por ser um liberal atípico, não permite que definamos com tanta facilidade o seu pensamento a ponto de vincularmos sua obra a uma vertente ideológica.
Tentei não encerrar o texto com uma citação, muito menos sendo ela longa, mas não consigo evitar. Acredito que ela resume bem a opinião do filósofo acerca da ideia falsa que surge quando se tem apenas uma opinião – como se ela fosse independente, desvinculada de interesses, valores e todo o resto:
Viver é agir. Agir é perseguir objetivos, escolher, aceitar, rejeitar, buscar, resistir, fugir, ser a favor ou contra uma forma de vida em seu todo ou em alguns de seus ingredientes. Os autoconscientes sabem disto, os inconscientes meramente o fazem; valores são portanto parte da própria textura da vida, que inclui pensamento, sentimento, desejo; nós não começamos nos situando em algum ponto arquimediano fora do mundo, de onde escolhemos este ou aquele ideal ou desejo, como objetivos em um supermercado; nascemos, como disse Aristóteles, em um mundo e uma sociedade; vemo-nos comprometidos com eles pelo modo que agimos normalmente, pelo fato de sermos o que somos, e estarmos onde e quando estamos (e nossas sociedades); ao tomarmos consciência disso, percebemos as contradições existentes entre os fatos e nossas noções ou fantasias, ou entre os nossos ideais, ou entre fins e meios adotados para servi-los; e podemos – e nisto consiste ser racional – tentar superá-los por meio de uma compreensão mais plena dos fatos. (Ibidem, p. 184)
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Referência:
- O sentido da realidade: Estudos das ideias e de sua história, Isaiah Berlin (trad. Renato Aguiar). Civilização Brasileira, 1999.

Quando você tiver um tempo leia “Quem pagou a conta” e saberá o porquê de eu ter jogado fora alguns livros do Isaias Berlin, exceto os “pensadores russos”, esse aí é um dos traidores da Liberdade!
Olá! Lerei sim. De fato, devemos ter bastante cuidado com certas leituras, quer dizer, com a possibilidade de ser afetado por elas e fazer projeções a partir disso, ainda mais quando se trata de pensadores polêmicos.
Obrigada pela leitura do meu texto. E agradeço também o comentário honesto!
abraço!