Um livro ímpar?
por Otávio Dias – O que esperar de um romance escrito por um físico? Um tanto distante do glamour cômico que envolve os personagens nerds e geeks no programa The Big Bang Theory e muito próximos das idiossincrasias malucas que adornam as relações sociais desta categoria de pesquisadores – como físico, me incluo entre os tipos –, esperava que A solidão dos números primos fosse um livro frio. É mais que isso.
De cara, encontramos um linguajar diferenciado, duro, que beira o grotesco e muda à medida que os protagonistas Mattia e Alice envelhecem. As palavras parecem calculadas pra acompanhar a idade, partindo de perspectivas que se alteram com o tempo, numa dança que tem por objetivo nos sensibilizar para com as experiências que os dois protagonistas sofrem logo no início do romance. Traumatizados em suas infâncias por acontecimentos distintos – Mattia responsabiliza-se por perder (perder mesmo, pra sempre) a irmã excepcional e Alice culpando ao pai por um acidente que a deixou manca –, os dois jamais se permitem adquirir um senso comum de normalidade, pouco importando suas capacidades pra participar da sociedade.
Alice e Mattia crescem perturbados: ela desenvolve distúrbios alimentares e sofre, quase voluntariamente – se é que isso é possível –, bullying, durante tentativa pra fazer parte dos círculos mais sociáveis de sua geração quando ainda adolescente; Mattia, excelente aluno toda a vida – e dotado de um estranho distanciamento do gênero humano – torna-se um distinto matemático. Sozinhos, criam distância da família e dos colegas e, apenas brevemente, permitem que suas vidas se toquem, em momentos que eles não são exatamente capazes de apreender. A relação entre ambos justifica o título do livro: são duas pessoas raras que sempre estão distantes um tantinho entre si, não importando o esforço que empreendam. A intersecção dessas duas vidas simplesmente acontece e eles deixam escapar o momento, porque confortáveis demais com a proximidade e o distanciamento do outro.
Os aborrecimentos e tristezas dos personagens, a forma como foram expostos, me remeteram a O apanhador no campo de centeio, com seu linguajar próprio e a exposição do pensar da fase adolescente que, creio, até então não tinha retrato fiel na literatura. Nestes tempos em que tanto se discute como somos moldados pelo meio – nossos pais, amigos, ambientes que freqüentamos –, o livro de Paolo Giordano consegue ser bastante sóbrio sem ser niilista. Uma boa experiência. Pra mim, um livro ímpar.
::: A solidão dos números primos ::: Paolo Giordano :::
::: Rocco, 2009, 288 páginas ::: encontre pelo melhor preço :::













![- No domingo, manifestantes tomaram a Paulista em protesto contra a ação da PM em Pinheirinho [foto: Pádua Fernandes] -](http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/protesto-pinheirinho.jpg)








Pingback: Andira Medeiros
Não tive a chance de ler o livro – mas a adaptação do filme na direção de Saverio Costanzo ficou maravilha.
Triste, poético e comovente.
Vou buscar pelo livro
Abraços