Tudo pode dar certo
por Jean Garnier – Olhando Tudo pode dar certo (Whatever Works – 2009, estreia prevista no Brasil para 12 de março), nota-se uma grande miscelânea de alguns outros filmes de Woody Allen. Aqui, há o personagem que se comunica com os espectadores (lembrando A rosa púrpura do Cairo) e o romance entre um senhor de idade com uma jovem (como em Manhattan). Esse senhor rabugento e misantropo era o perfeito papel para Allen, que preferiu ficar apenas a cargo da direção e do roteiro. Quem “encarna” Allen agora é Larry David, o mesmo das séries Seinfield e Curb Your Enthusiasm.
Boris Yellnikoff (David) é um ex-físico nuclear que quase foi nomeado ao Nobel e agora está aposentado e divorciado de uma mulher tão perfeita que ele não suporta mais. Com tendências suicidas, Boris vive em Nova Iorque, passa o tempo conversando com os amigos, dá aulas de xadrez, é neurótico (ao ponto de cantar “Parabéns pra você” todas as vezes que lava as mãos) e logo no começo do filme avisa: “Não sou um cara simpático”. Para ele o mundo é uma verdadeira estupidez e existir no meio de tanta gente idiota é um grande sacrifício.
Num dia, a amargura do protagonista começa a mudar. Melodie St. Ann Celestine (Evan Rachel Wood), uma jovem bonita e que vem do sul dos Estados Unidos, aparece como uma criança abandonada pedindo algo para comer. Melodie é extremamente o oposto de Boris: alegre, ingênua, otimista e confiante na vida. Com o tempo, a garota acredita em tudo o que ele diz, chega a propor um casamento e consegue quebrar aos poucos a casca de insatisfação do carrancudo Boris.

Mesmo com a diferença de idade e de humor, os sentimentos entre os dois começam a se desenvolver. Entram em cena a mãe da moça, a religiosa Marietta (sensacionalmente interpretada por Patricia Clarkson), e seu pai, John (Ed Begley Jr.). A partir daí, acontecem algumas reviravoltas na história, como forma de não deixar o espetáculo cair no tédio.
Esse é o primeiro filme de Allen em Nova Iorque depois do seu “exílio Europeu”, onde filmou na Inglaterra e na Espanha. Não há o charme e a sedução do anterior (Vicky Cristina Barcelona), mas é muito superior a outros recentes (O sonho de Cassandra, Scoop – O grande furo e Match Point). O diretor escreveu esse filme nos anos 1970, pensando em dar o papel principal a Zero Mostel (que faleceu em 1977), mas acabou arquivando. Três décadas depois, decidiu jogar a tarefa para Larry David, que soube brilhar no personagem central, trazendo a experiência de outras atuações suas (principalmente em Curb). O grande monólogo que David faz no início do longa é realmente algo notável. Mesmo com um final um tanto forçado, Tudo pode dar certo é uma diversão agradável e que no final das contas traz uma bela mensagem.
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dizer que “tudo pode dar certo” é superior a “match point” ou “o sonho de cassandra” é comparar o incomparável. como comédia, pode até ser superior a “vicky cristina barcelona”, já que é mais engraçado. é mais um filme rápido do allen, como “o escorpião de jade” ou “dirigindo no escuro”, mas o mais engraçado desde “os trapaceiros”. tem toda aura novaiorquina que faz a diferença para quem é fã de allen e acha estranho o “clima” dos filmes europeus – e muitos podem confundir isso com “qualidade”. é um filme bacana, engraçado, pequeno, com bons atores e um texto afiado, baseado em duas ou três piadas recorrentes na filmografia do diretor.
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Oi Biajoni,
É só uma questão de gosto. Não sou expert no Allen, mas vi esses e mais alguns outros mais antigos (Annie Hall, Manhattan, Rosa Púrpura, Afrodite, Crimes, Hannah…).
Todos os que vc citou são filmes bacanas, mas gostei mais de “Tudo Pode…”. O único que eu não suporto muito é “Melinda”…
Abraço
Achei comédia esse cartaz do filme. O Larry David tá mostrando pra menina o tamanho de quê?
Agora irei comentar certinho.
Olha, sem ser grosseiro, eu acho que é a demora do filme para estreiar no Brasil.
Rapaz, eu ia até comentar. Mas o Biajoni foi mais rápido. E só pra chover no molhado, acho que Match Point não se compara com mais nada.
Anna,
De todos o que eu citei na resposta que dei para o Biajoni, eu prefiro o Annie Hall.
Tem quem prefira “Rosa Púrpura”, “Tudo o que você…” ou até “Manhattan”.
Vou excluir “Tudo pode dar certo”, portanto dos últimos eu prefiro “Vicky…”, se vc, Biajoni e o Jonathan Rhys Meyers preferem “Match Point”, é questão de gosto.
Obrigado a vocês por lerem e comentar. As opiniões são muito interessantes.
Jean, hoje na Cultura eu vi o box de filmes do Woody Allen (o que tem uma maçã de óculos na caixa. a caixa do box, ai.) e lembrei do seu post. e percebi que dos “blocos” ditos pelo Biajoni, eu assisti “exemplos”, alguns dos quais eu gostei muito, como Match Point. outros nem tanto – como o Vicky, Cristina…- aí comentei com um amigo que tava comigo que “putz, acho que preciso ver mais Woody Allen” e ele me respondeu com um “toma vergonha.” tô achando que crítica é questão de gosto mesmo.
Match Point é muito legal. Talvez eu goste mais de Vicky por todo o envolvimento amoroso que há entre os quatro. fraco dele eu acho “Melinda”, apesar da ideia ser bacana. Mas sei lá, nas desceu. Obrigado por responder.
bom, se crítica é questão de gosto… então tá tudo certo.
:>)
btw, a filmografia do allen tem “blocos” de filmes, dentro desses “blocos” é até justo que haja comparações. “sonho de cassandra” é um grande filme, mas saiu logo depois do maior ainda “match point”, são dois filmes que permitem comparação com “crimes e pecados” e até “a outra” ou “interiores” e “setembro”, filmes da linha sério/existencialista de allen.
tudo pode dar certo se inscreve no bloco dos filmes pequenos, geralmente originados de pequenas idéias que allen anota em papéis que leva no bolso… “scoop”, “escorpião de jade”, “trapaceiros”, “misterioso assassinato em manhattan” ou “sonhos eróticos de uma noite de verão”…
particularmente, gosto quando o subtexto sério encontra a comédia, como em “a última noite de boris grushenko”, “memórias”, “hannah e suas irmãs”, “desconstruindo harry”…
isso é gosto puro, nada tem a ver com crítica.
;>)
Lógico Biajoni, é questão de gosto. Não me odeie pq eu prefira esse ao Match Point.
Há uma parte em “hannah e suas irmãs” que o Daniel adoraria: o personagem de Woody se transforma num católico praticante, e para mostrar a fidelidade, compra diversos produtos relacionados a religião.
A cena mostra ele tirando de um saco de papel alguns os itens (a memória tá falhando): um terço, uma biblia, um saco de pão de forma e um pote de maionese HELLMANNS.
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Tudo pode dar certo
Wood Allen figura tarimbada em trágico-comêdias nova-iorquinas e temas existenciais psicanalíticos e em criações que encantam e surpreendem os mais desavisados. Agora Allen ataca novamente com mais uma obra prima o filme Tudo Pode Dar Certo, contem excelente tema, muito atual, Wood trabalha com uma perspectiva contemporânea. O filme começa com uma grande discussão filosófica entre amigos, onde Lerry David o Boris Yellnikoff o protagonista da historia relata suas crenças e descrenças. Boris foi professor universitário, lesionava mecânica quântica. Aposentado passa seus dias a pensar sobre o ser humano e suas relações sociais. Boris é extremamente pessimista, descrente na sua visão decadente para com o ser humano, e faz um tratado cientifico e filosófico em torno da vida, observando o que é mais importante para as pessoas normais. Temas engraçados e sérios causando reviravoltas inesperadas.
Wood baseia-se nas teorias modernas sobre ciência, faz um comparativo com as relações humanas. Qual o sentido da vida? Formula uma teoria do acaso ou do caos, onde tudo tem sua própria ordem. Que ordem é essa, que é problema? Baseado na física quântica, para ser mais exato mecânico quântica, que acredita em uma teoria do fim ultimo e verdadeiro, exedendo-se também, para as obscuras relações humanas. Referente à nossa procura pela felicidade, como procurar, onde achá-la? Porque sempre, alguma coisa sai dos padrões, e nada é como a gente imagina.
O acaso caso inesperado entre Boris e Melodie, serve de tema ilustrativo, “quando nossa própria teoria nos trai”, e somos pegos pelos pés. Embora Boris saiba que essa relação não vai lhe dar total segurança, e que a disparidade de idade e idéias não se ajusta. Ele embarca na relação, como diz um grande escritor: “embora estejamos adestrados para a vida, existe sempre algo que nos arrebata e nos põem a prova”.
A partir dessa relação entre Boris e Melodie vai-se bordando as histórias dos personagens, narradas por Boris e seu pessimismo ferrenho e revoltado, devido ao que ele acredita; a enormidade de burrice contida em certos seres humanos. Como sempre Wood surpreende; o texto maravilhoso recheado de teorias científicas filosóficas moldando, o que eu diria; um clássico do cinema nova-iorquino.
Física quântica, teorias da filosofia moderna, descontinuidades, psicanálise. filósofos como Deleuze, Nietzsche; o psicanalista Guattari, o cientista Wittgenstein. Baseado na Teoria das Cordas e os novos princípios matemáticos utilizados nesta teoria, permitem aos físicos afirmar que o universo possui 11 demissões; 3 especiais – altura, largura e comprimento. 1 o tempo e 7 demissões curvadas como massa e carga elétrica, o que explica as características das forças fundamentais da natureza. De acordo com a teoria das cordas, os elementares do universo não são partículas puntiformes – forma de ponto. Mínimos filamentos unidimensionais como elásticos infinitamente finos que vibram sem cessar. Está teoria propõe que roda a matéria e todas as forças provém de um único componente básico – cordas oscilantes. “Teoria que explica tudo”.
Com muita filosofia e critica social Wood formata seu filme, criando uma comédia trágico-romântica, de diferentes temáticas, reciclando temas e feituras anteriores, dando uma visão espantosamente nova as questões dos desejos e as decepções humanas abordadas no filme. Tudo isso de maneira inteligente, artística e de bom gosto. Wood mantém seu nível intelectual como bom judeu nova-iorquino, prendendo o espectador até o fim em sua telinha mágica.
Ass, Golon Byron