Quem é você? Quem somos nós?
por Vanessa Souza – Indivíduo singular plural, do psicólogo e psicanalista baiano Eduardo Leal Cunha, não é um livro para ler de uma só vez. São necessários vários fôlegos, pausas, retomadas. Afinal, ele junta Bauman, Barthes, Blanchot, Derrida, Foucault, Fourier… e Freud! Vou me deter, mais atenciosamente, no pai da psicanálise.
Na orelha da obra, o ótimo Joel Birman avisa que a proposta do livro é mostrar a articulação entre a concepção de identidade e a emergência da modernidade no Ocidente, o que ocorreu na construção do Estado-nação e a noção de soberania. Onde entra a psicanálise nisso? Segundo Birman, ela trouxe contribuições fundamentais para a interpretação do psiquismo. E estas, concebem outras modalidades de subjetivação, compatíveis com uma leitura do psiquismo fundado no descentramento.
Vamos então ao todo, que pareceu-me bem fragmentado. Para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, amplamente citado no livro, as identidades da atualidade são pensadas em um contexto de crise. Bauman afirma que o fato de vivermos em uma modernidade líquida faz com que concentremos grande parte de nossa energia em operações de vigilância – para enfrentarmos e termos sob nosso domínio a imprevisibilidade do mundo contemporâneo. Ou seja, paranóia em tempo integral com muitos mecanismos de defesa. Essa modernidade nos mostra a fragilidade e a falta de estabilidade das coisas – e das pessoas.
Já a questão do indivíduo, para Freud, começa a partir do estudo da histeria. Diz Cunha:
(…) o mecanismo de identificação aparece como o modo de pensar próprio ao inconsciente referido à articulação e ao posicionamento do indivíduo e diferentes tramas intersubjetivas, fazendo com que a experiência subjetiva ultrapasse as fronteiras da corporeidade e com que o sujeito possa, pela via do sonho, da fantasia ou sintoma, experimentar o lugar do outro ou reconhecer, no outro, algo de si.
Segundo o psicanalista, há várias noções possíveis de identidade, e usos distintos para esse termo, dispersos pela obra de Freud. E as fantasias são fundamentais nesse processo complexo da individualidade, já que elas se formam a partir de fragmentos de sentido, restos de histórias, sobras deixadas pelo outro.
(…) as fantasias trazem, no entanto, as marcas do processo primário e do inconsciente, território sem lugar para a contradição e no qual o alinhamento contínuo entre passado, presente e futuro também não faz sentido, ou melhor, não se impõe como sentido único, território no qual o prazer é o principal destino.
Cunha afirma que o ato de fantasiar é o ordenamento e reordenamento permanente, de movimentos e limites em uma rede de representações. É necessário construir o tempo todo o ponto de encontro entre o que a pulsão exige e os limites impostos pelo outro. O psicanalista conclui a obra propondo uma existência “para além de qualquer vínculo de pertencimento, em um modo de ‘viver junto’ no qual já não seja fundamental saber quem é você, ou o que deseja”.
::: Indivíduo singular plural: A identidade em questão ::: Eduardo Leal Cunha :::
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Interessante essa frase “uma existência para além de qualquer vínculo de pertencimento, em um modo de ‘viver junto’ no qual já não seja fundamental saber quem é você, ou o que deseja”. Penso que na ordem material, só o espírito cria, essa frase me pareceu muito “ocidental”. Vou pensar mais sobre isso! : ) Valeu por mais essa dica ; )
Fabi,
Pense sim, querida.
Sabes que da ordem do espiritual, eu quase nada sei, rs. Ao contrário de você…
Disponha!
Beijo.
Pingback: Andira Medeiros
Também achei a frase final interessante, porém utópica em demasia… Adorei o termo “modernidade líquida”, e a a explicação dada pelo sociólogo ao abuso dos mecanismos de defesa resultantes dessa modernidade.
Não pareceu realmente uma leitura fácil, mas sua resenha – tão bem escrita – explorou de forma direta os temas centrais…
Beijo!
Ciça,
Vais adorar Bauman! Quando terminares os Escritos de Lacan – e, como te disse, vais levar um tempinho para digerir, creio eu – eu te empresto Bauman.
Obrigada! Eu tive que resumir muito mesmo, afinal, a obra traz muitos autores incríveis e pontos para lá de interessantes.
Beijão!
Pingback: Doni
Eu e o Eduardo fazemos parte da mesma sociedade de psicanálise, apesar de termos pouco contato, gosto muito dos trabalhos dele. A orelha escrita pelo Joel é bastante elucidativa de uma das vocações da psicanálise, ser uma filosofia política. Fico muito contente em ver o trabalho de um colega tão talentoso quanto o Eduardo ser resenhado aqui no Amálgama.
Cesar,
E eu fico contente em resenhar tal talento.
Abraço,
Vanessa
Tanto o livro como aresenha me parecem confusos, mas o livro que a resenha, que, corretamente é consequencia.
Confio na tua leitura e opinião e não acredtoprocurar o ivro.
Outra coisa, continuas melhorando… Parabens!!
Eutimio,
Creio haver uma distinção entre confuso e complexo, rs.
Obrigada!
Abração.