13–01–2010

O delírio de onipotência do Narciso consumista


por Fernando da Mota Lima * – Eu tudo quero e tudo posso. Ser feliz, desejo supremo de todo ser humano, é apenas questão de vontade e coragem. Não ter medo de ser feliz, esta é a expressão mágica no país de todos. Aproveitar tudo, viver tudo a que tenho direito. Mais que isso: tudo que desejo. Meu desejo é a medida da realidade. O negócio é chegar lá, lá onde me espera o objeto do meu desejo. E o que aprendi e o que sei é que vale tudo: tudo por dindim, tudo para que o outro me veja e confirme minha existência, tudo pelos 15 minutos de celebridade, que no meu caso serão eternos. Ser sempre o que o outro quer, já que o outro é a medida da minha existência, já que é o outro quem valida o que sou. Ser é ser o outro e à margem do outro que me vê e me valoriza eu sou apenas a sombra do apagão, um zero. Nada.

Se Caetano Veloso canta que Narciso acha feio o que não é espelho, eu vou além, muito além, e afirmo que Narciso é o próprio espelho, que Narciso é uma criação do outro. O outro é o Big Brother, a mídia, o olhar invejoso do vizinho que quer meu carro importado porque odeia o que tenho e o que tenho é o que sou. O outro é o chefe a quem presto vassalagem para ser o que ambiciono: o executivo sem alma, o astro da mídia, a prostituta que se chama acompanhante ou modelo, o deus do futebol com quem me identifico quando visto sua camisa e majestosamente desfilo pelas ruas como se fosse ele. Se ele me toca, ou rabisca um autógrafo no guardanapo de papel onde o nome dele e o meu se imortalizam, sinto-me como se a mão de Deus sobre mim descesse. É quando sei que sou onipotente. Eu tudo posso. Eu tudo quero.

Sou the hollow man, o homem vazio, o homem oco do poema de Eliot. Não me procurem onde não estou e nunca estive: dentro de mim, pois sou pura forma aparente. Sou o reflexo de uma avenida em cujas margens vislumbro outdoors e clipes publicitários, vitrines que semelham templos onde adoramos o Deus mercadoria, massas errantes rolando por ruas anônimas à procura do que todos procuram: um quinhão de fama, um farelo de notícia que prove ao mundo e antes de tudo a mim próprio a existência dentro de mim anulada. Sou o homem vazio, o homem oco que é pura aparência. Dentro de mim há apenas poeira, um deserto sem água, trapos recobrindo minha nudez vazia e uma angústia sem norte, uma ansiedade sem objeto, um desejo de fuga sem destino, o vazio carente de algo que o preencha.

Mas tudo posso, essa é a voz sedutora do clipe publicitário que me persegue e cativa em tudo que ouço e me cerca. Ela escorre geladinha na garrafa de cerveja. Ou é na bunda deslumbrante da loura gostosa que bebe nos meus braços? Ela me faz crer que sou o dono do banco, não o correntista esfomeado entre o desejo de consumo e a taxa de juros. Ela transfigura minha solidão num harém onde as mulheres mais lindas e inacessíveis estão à distância de um travesseiro na minha cama, dóceis e servis como as mucamas dos engenhos de açúcar coloniais. Eles sobrevivem, os engenhos e seus senhores onipotentes, os engenhos e a escravaria moída pela máquina que sem alma tudo tritura; eles sobrevivem no tipo de capitalismo brutal que criamos, na mídia com seu circo de horrores cotidianos.

Sou onipotente pilotando meu carro que é uma máquina de guerra. Dentro dele viaja submissa a mulher que eu quiser, escrava do meu desejo. Dentro dele, miro com desprezo a massa anônima pendurada no estribo do ônibus, espremida nas janelas de veículos ferventes à luz do verão. Dentro dele, vejo de relance a massa de trabalhadores espremida em trens como se fosse sardinha enlatada. Dentro dele traço a fronteira entre dois Brasis atados mas divididos, cada vez mais se defrontando com surda ferocidade. Um país de todos, mas desiguais. Dentro dele, acelerando como um guerreiro em combate, atropelo o pedestre, ultrapasso sinais vermelhos, excedo todas as velocidades porque a potência do meu carro é instrumento da minha onipotência. Dentro dele estou acima da lei porque a lei e todos os códigos inventados pela sociedade são apenas o que acelero e compro.

Os valores e direitos humanos? Digam-me quanto custam, pois tenho o poder de comprá-los. Amor, delicadeza, ética, respeito, civilidade, compaixão, tudo isso soa como palavra tão vazia quanto o vazio que dentro de mim transporto. Como disse, não me procurem onde não sou e estou. Sou pura aparência produzida pelos poderes aos quais servilmente rendo minha liberdade, um sentido de humanidade e beleza que nunca provei nem me apetece. O que não suporto é a solidão, a hora fatal em que preciso mirar-me não no espelho do outro, não no espelho que é o outro, mas no espelho da parede do banheiro que habito, no espelho da minha casa sem humanidade. Nesses momentos irrompe e me sufoca a solidão dos desertos áridos, a angústia sem corpo e forma, a insatisfação sem repouso.

Como explicar essa insatisfação permanente, esse movimento sem pausa, se tudo compro e tudo tenho no shopping que é o templo onde venero meus deuses e realizo minha figuração do céu na terra, céu que é aliás o único, pois que sou eterno? Os publicitários, voz da minha consciência, inventaram a terceira idade e assim aboliram a velhice. Eu, que tudo posso, fui além deles: desinventei a morte e me fiz eterno. Eu sou o outro e sou eterno. Mas por que não paro de me doer? Por que sou a droga sem a qual não suporto o mundo nem me suporto? Por que esse vazio que vai de dentro para fora de mim quando o espelho não é o da mídia, mas o da parede do meu banheiro?

* Fernando da Mota Lima é professor de sociologia da Universidade Federal de Pernambuco. Blog: fmlima.blogspot.com.

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  1. Irla Costa (13–01–2010 8:34 am)

    Texto de ótima qualidade!

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  2. Andira Medeiros (13–01–2010 6:50 pm)

    Eu tudo quero e tudo posso: http://bit.ly/7gd7SR. O delírio de onipotência do Narciso consumista no @AmalgamaBlog

  3. Bosco (23–01–2010 3:44 am)

    Somos no íntimo nós mesmo. Na vida pública mostramos as inúmeras caras que temos.

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  4. Marok (3–02–2010 9:18 am)

    Maravilhoso. Por um acaso, quando li esse texto, acabava de fazer um comentário, no tópico sobre o Bóris Casoy, justamente nesse sentido.
    As pessoas apanham da vida, têm exemplos diários sobre esse assunto e, ainda assim, incorrem sempre no mesmo erro. Ninguém parece conseguir extrair as informações e ensinamentos oportunos.
    É tão fácil trilhar o caminho da felicidade. E é um caminho tão largo, com tantas vias, que quanto mais gente for por ele, mais outras poderão encontrá-lo.

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  5. Reni Eliane Fernandes (14–04–2010 1:05 pm)

    O discurso que a mídia confugura na subjetividade das pessoas é uma hipocresia de felicidade, deixando-nos vazios de nossa própria autonomia de sermos como somos.

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  6. Adeusane Lília (14–04–2010 4:28 pm)

    Como esse professor escreve bem? Além de escrever incrívelmente bem, está a par de nossa realidade. Infelizmente o mundo é das pessoas que tem dinheiro. O mundo se move assim, é fato verídico. O dinheiro compra tudo, mas não compra a FÉ. As pessoas esquecem que existe DEUS lá em cima e que está olhando para tudo o que fazemos. ELE sim é eterno, e nós meros mortais!

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  7. Fernando da Mota Lima (14–04–2010 7:42 pm)

    Cara Adeusane:
    Alguém certa vez observou que somente as pessoas que nunca tiveram dinheiro imaginam que ele compra tudo. Lembrei-me disso ao ler seu comentário. Aliás, note que você se contradiz, pois, depois de afirmar que o dinheiro compra tudo, reconhece que ele não compra a fé. Há por aí muito charlatão vendendo fé, que infelizmente é comprada por muitos ingênuos ou desesperados de boa fé. Mas isso é outra história.
    Fernando.

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  8. Marcos M (14–04–2010 10:54 pm)

    Hoje em dia é vergonhoso ser vc mesmo! Bonito é ser um BBB, ou ‘coisa’ parecida. I´m a human!

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    Fernando da Mota Lima:

    Marcos M
    Since you are human, as you say, so have the courage of being yourself.
    Ouse ser você mesmo, Marcos, não um BBB. Afinal, todos eles são iguais, são produzidos para serem objetos que consomem e são consumidos.
    Fernando.

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  9. A culpa é dos iluministas (27–04–2010 12:07 am)

    [...] esta crônica tem relação com a crônica “O delírio de onipotência do Narciso consumista“ [...]

  10. Juliana Dacoregio (27–04–2010 6:49 am)

    RT @amalgamablog: O delírio de onipotência do Narciso consumista http://bit.ly/8Ymywd

  11. Daniel (27–04–2010 4:12 pm)

    Testando

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