Um guarda-sol na noite e outros contos, de Luiz Filipe Varella
por Rafael Rodrigues * – Se criticar obras de escritores consagrados pode ser perigoso, imagine então escrever sobre livros de autores iniciantes. É arriscado, até mesmo para críticos experientes. Não apenas por conta de ser alto o risco de se cometer um erro de “julgamento” – tanto para o elogio quanto para a crítica, mas também porque nunca se sabe qual será a reação do autor no caso de uma resenha não elogiosa.
Em outubro do ano passado, no Fórum das Letras de Ouro Preto, o escritor e crítico literário José Castello contou talvez a situação mais estressante que já viveu por conta de uma resenha. O autor do livro resenhado – e que nem foi tão criticado, segundo Castello, que disse apenas ter apontado outros caminhos, melhorias que poderiam ser feitas – chegou ao ponto de telefonar várias vezes para o crítico, dizendo até que cometeria suicídio, pois sua resenha “acabara com a obra” – a quem interessar possa: até onde se sabe, disse Castello, o indivíduo não se matou.
Ora, escrever, seja um livro, uma matéria, ou até mesmo uma resenha, não é um mar de rosas, nunca foi. Não existe escritor que seja unanimidade, não há nenhuma obra – e aqui não me refiro apenas a livros, mas a qualquer obra de arte – que tenha agradado a todos os que a ela tiveram acesso. Qualquer um tem o direito de achar a Mona Lisa feia, desde que se respeite o autor, a obra e a importância dela – não quero com isso dizer que acho feia a obra-prima de Da Vinci, pelo amor de Deus.
Digo tudo isso porque este texto trata-se de uma pequena resenha ou, diria Castello e gostaria de dizer eu, uma pequena conversa sobre o livro Um guarda-sol na noite e outros contos, de Luiz Filipe Varella.
(Antes, um pequeno parêntese a respeito da editora que publicou a obra, a Dublinense, que eu não conhecia. A edição do livro ficou muito bonita. Me parece que utilizaram um papel de qualidade, a capa é muito bem feita, o livro tem orelhas, foto do autor, enfim, um belo trabalho. Incrível como às vezes pequenas editoras conseguem realizar trabalhos melhores do que grandes editoras. Mas voltemos ao cerne da questão.)
Os contos, em sua maioria, são curtos. Três, quatro páginas. São poucos os que ultrapassam essa medida. O livro não é grande, 94 páginas, e isso vale também para o formato, ligeiramente menor que o tamanho padrão dos livros publicados no Brasil. A leitura, portanto, é rápida, e pode ser feita em pouco tempo, “em uma sentada”, como dizem. Foi um dos pontos que mais me agradou. Particularmente, não gosto de contos longos. Às vezes o autor se perde no meio do caminho, a própria história perde sua força, o final que poderia ser impactante acaba sendo amainado no decorrer do conto… Em histórias mais concisas, o final brusco causa uma maior inquietação no leitor. E é justamente este “choque” o propósito, no mais das vezes, do conto; emoção, espanto, surpresa… é isso que se espera de uma história curta.
Mas é justamente nisso que peca a maioria dos contos de Um guarda-sol na noite: no final. A maioria das histórias é muito bem desenvolvida, todas são muito bem escritas, mas muitas delas, se tivessem um outro final, seriam bem melhores, teriam um efeito bem maior. “Contra-ataque”, por exemplo, é talvez a melhor história do livro. Luiz Filipe se arrisca num tema que não é muito abordado na ficção brasileira, apesar de ser inerente ao brasileiro, o futebol. Nela, um dirigente de clube telefona para o ex-goleiro de seu time, que, agora numa outra equipe, vai enfrentar o ex-clube, pedindo-lhe para levar dois gols. Contar o restante e o desfecho do conto não seria nada elegante, mas o final dele, se fosse um pouco diferente, se ficasse apenas entre o leitor e o goleiro, teria outro peso. Por outro lado, a história mais curta do livro, “Um fruto”, que não chega nem a uma página inteira, é uma das melhores, devido a sua simplicidade e objetividade. Outro ponto alto do livro é o conto “Assustando-a”, uma história misteriosa que não se resolve no final e dá ao leitor várias leituras possíveis.
Um guarda-sol na noite é o segundo livro de Luiz Filipe Varella, que tem outro título de contos publicado, Tinha um telefunken preto-e-branco na sala. No fim das contas, o saldo é positivo. Não há como negar: Luiz Filipe tem talento. Mas é preciso também dizer que algumas de suas histórias poderiam ser bem melhores do que são. De qualquer forma, ler e ter não só Um guarda-sol na noite, mas também Tinha um telefunken… é altamente recomendável (em breve encomendo o meu, na Estante Virtual). Acompanhar de perto a carreira deste autor com certeza será ainda mais gratificante.
::: Um guarda-sol na noite e outros contos ::: Luiz Filipe Varella :::
::: Dublinense, 2009, 96 páginas :::
* Rafael Rodrigues é editor-assistente do Digestivo Cultural. Blog: entretantos.com.br.
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