Ela entende do assunto
por Vanessa Souza – Fernanda Young é uma mulher extremamente fálica, logo, de pau ela entende. Como diz minha analista, deve ser daquelas que chegam em casa e batem com o pau (eu me autorizo a usar a palavra, afinal, este é o nome da obra sobre a qual discorrerei um punhado de linhas) em cima da mesa, mostrando ao homem quem é que manda ali. Talvez por isso, eu não conheço nenhum homem que goste dela. Todos dizem que ela é irritante demais, além de ter ouvido várias críticas sobre o ensaio dela na Playboy – que eu comprei, a única em 2009. Afinal, a Fernanda não é assim, uma coelhinha convencional. E eu sempre me interesso pelo desinteressante.
“Já que os homens são seus paus, conforme já foi dito, e em paus não se pode confiar. Paus não obedecem nem a seus donos. Pelo contrário: o que vemos são donos obedecendo a seus paus”, Adriana, protagonista de O pau já vai avisando no primeiro capítulo. A personagem principal da trama é uma culta e elegante designer de jóias, de humor instável e chegando aos 40 anos.
Adriana se envolve com um belo – e burro – ator mal sucedido de 24 anos. Depois de muitos infortúnios na vida amorosa e um aborto involuntário, ela insiste – porque é brasileira e não desiste – numa relação em que a incompatibilidade intelectual é abissal. Ela é generosa com o jovem ator: indica filmes, livros, paga uma viagem a Paris, cursos… Enfim, o que muitas mulheres fazem: melhorar um homem para que ele a troque por outra mais adiante.
Estava até disposta a ajudá-lo, desta vez. Comprou vários DVD’s para assistir com ele, desde filmes clássicos a documentários. Emprestou livros para ele ler, fazendo uma seleção das obras mais fundamentais. Foi com ele a algumas boas peças, Shakespeare, Pinter. Passou a palpitar nas roupas dele (…) E se esmerou que ele tirasse as lições que tinha de tirar de tudo isso.
- Entendeu?
- Hã?
- Entendeu essa cena?
Assistiram a Um Bonde Chamado Desejo em quatro horas e meia, porque ela parava o filme, e voltava; e parava, e voltava; até que ele tivesse entendido corretamente cada menor movimento do Marlon Brando.
A designer sente-se angustiada em estar com alguém que se preocupa mais em ir para a academia ou se besuntar de cremes do que ir ao cinema ou teatro. Mas ela está apaixonadinha e vai relevando, aquilo que para ela não tem remédio. Gentil, mas não da forma como ela precisa que seja. “Amor não tem nada a ver com pau, nem pau tem nada a ver com amor. Dificilmente, só mesmo por coincidência, acontece de pau e amor concordarem sob algum aspecto. Então, tiremos o amor da questão”, reflete ela, em um determinado momento.
Tudo segue mais ou menos na relação, até que em uma noite, enquanto o namorado dorme e ronca pesado na cama, seu celular toca. Adriana não resiste ao impulso, e olha a mensagem de texto no iPhone do namorado. “VOCÊ PODE ME LIGAR? SÓ QUERIA CONVERSAR. ESTÁ COM A VELHOTA?” Adriana lê tudo isso, assim, em caixa alta. A sensação que tem é que lhe enfiaram um supositório de cocaína, nas palavras da personagem, tamanha é a corrente elétrica estranha que percorre seu corpo.
Paro por aqui, para não estragar as demais surpresas do livro. A obra, vale ressaltar, é para ser tragada em poucas horas. Muita adrenalina para um livro curto que trata, basicamente, além do tema do título, de vingança e de incompatibilidade intelectual. Mesmo para aqueles que não simpatizam com a Fernanda, valerá a leitura de cada página.
::: O pau ::: Fernanda Young ::: Rocco, 2009, 182 páginas :::
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[ foto da autora: Abril.com ]
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![- No domingo, manifestantes tomaram a Paulista em protesto contra a ação da PM em Pinheirinho [foto: Pádua Fernandes] -](http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/protesto-pinheirinho.jpg)






Deu vontade de ler…já passei por ele várias vezes e não folheei. Confesso que não botei fé…
Eu tive vontade à primeira vista
A mulher comprou revistinha pra outra pessoa ler. Deu vontade de correr pra ler o livro. Ótima resenha!!
Candy,
Eu comprei para eu ler, hahaha.
Tinha uma matéria com o Alex Atala – o meu chef de cozinha favorito, o mais gato também, rss.
E, afinal, coelhinha que já publicou 8 livros, não é todo dia que a gente vê na Playboy…
Não conheço muito da obra de Fernanda Young. Na verdade, assim como os que você há pouco citou, também não simpatizo muito com ela, deve ser um daqueles preconceitos inexplicáveis. No entanto, a sua resenha, muito bem escrita por sinal, é capaz de suscitar em mim certa ponta de curiosidade. Vou conferir.
Abraços.
Acaso a curiosidade for adiante, conte-me depois
Adorei o post… Sempre gostei muito da FY e depois do texto fiquei mais interessada em ler o livro… =)
Beijos :**
Noemyr,
Devore-o, então!
Encarar Fernanda Young como uma mulher “fálica” é dose. Suas manifestações públicas vem a todo tempo iluminar o quão neurótica é a sua personalidade. As coisas até podem se confundir, mas são bem diferentes.
Não li nenhum de seus romances, tenho até vontade, mas certamente não começarei por esse. Mulher que se envolve com rapaz mais novo e tenta de todas as formas moldar a personalidade do outro, controlar a identidade do outro…? Hmmm, não, obrigado.
Taiguara,
Esta é a sua interpretação, e eu a respeito.
Eu que agradeço, pela sua leitura – até o final, considerando que já discorda da primeira linha.
Grande abraço!
Oi, Vanessa! Vc começou seu texto com um comentário sobre a personalidade da FY e assim comecei meu comentário, mas o post é sobre um livro e, claro, divergências entre o que achamos da autora não impediriam a leitura do restante.
Abs!
Claro, é minha opinião.
Abraço!
Sou um daqueles que não simpatizam com Fernanda, pois acredito que a arte quando aceita perde sua essência e passa a ser adorno!.
És um de muitos – na falta de simpatia por ela, rs.
Quando eu disse revistinha pros outros lêem, é um ditado que por exemplo, um cara compra uma roupa linda pra namorada ficar sendo admirada por outros homens.
Rsss, de qualquer forma, Candy, minha resposta anterior vale…
Vanessa,
Creio que Candy comentou sobre a personagem do livro tentar melhorar o namorado mas outra é que vai usufruir… através do ditado “comprou revistinha pra outro ler…”.
Nada a ver com vc ter comprado a Playboy, que por sinal estava maravilhosa…aquela tatuagem de corrente em volta da cintura é um espetáculo…
Bjks,
Maurício,
Eu entendi depois…
Mais uma para a lista “gosto não se discute”. Eu detesto tatuagens… Acho uma coisa tão-tão-definitiva…
Concordo com gosto não se discute. Mas não sou tão radical quando se trata do que gosto e do que não gosto.
Dizer destesto tatuagens também seria muito definitivo. Gosto de algumas, detesto algumas e sou indiferente pra outras.
Em outra pessoa, essa tatuagem poderia ficar horrorosa… Penso que na FY, ficou muito apropriado…Principalmente, levando em conta a simbologia que ela representa…
Pingback: Andira Medeiros
Bem, eu sou homem e aprecio Fernanda Young, se bem que às vezes acho que ela “se acha” rs… Mas ela até pode, né? rs… Pela resenha, ao que pude intuir, parece aí haver um velho paradigma que assolam homens e mulheres. Ao menos aos homens que querem algo além do que seus paus mandam rs…
Somos seres idealistas, infelizmente. A diferença entre essa empresária bem sucedida encantada com o malhado ator e um empresário bem sucedido encantado com uma garota mais nova (tá, pode ser atriz, modelo, etc…) está na questão que, sendo o pau quem comanda o homem, ele quer apenas acreditar que tem o domínio e o controle (fálico). A mulher precisa da comunhão, não do controle, e passa a controlar e “encaixar” seu amante quando percebe que essa comunhão não existe.
Existe gente mais nova que pode querer, de livre e espontânea vontade, se recostruir para comungar com alguém mais velho? Sim, há… Mas isso é uma construção solidária e conjunta, que não tem domínio de um sobre o outro. É raro, mas existe… e o mais velho, em geral, ganha tanto quanto o mais jovem que se permite fazer isso por amor…
Amor só não basta. É preciso disposição para amar. Amar o amor, sem idealismos, e estar disposto a construir um amor singular e pessoal com quem se está… Aff, parei com prescrições rsrsrs…
Beijão…
Uau, ele é homem!
E ele gosta de Fernanda Young!
Junte-se ao mundo das exceções, rs.
Entre os dois personagens, a mulher culta e o ator burro… É preciso ler para ter simpatia – ou não. Eu não tive simpatia pelo ator, e não tem nada a ver com idade. Conheço pós aborrecentes de 18 que dão aula de maturidade. E pessoas de 60 que são extremamente infantilizadas.
Particularmente – Vanessa mesmo escrevendo, para além da resenha – acredito que as pessoas se complementem, até certo ponto. Mas, todavia, contudo, entretanto, creio com convicção de que a incompatibilidade intelectual pode se tornar um abismo entre um casal. O que era engraçadinho no começo vira um monstro depois.
Concordo Gilberto, amar é lindo e tal. Mas requer, sim, disposição, vontade, energia…
Pode propositar à vontade
Confuso ficou este comentário do Taiguara. Em maioria somos neuróticos, até aí nenhuma novidade, supondo que a FY esteja neste estrato (encará-la como uma mulher “fálica” não seria uma questão de opinião e talvez escolha, meramente?).
“Hmmm, não, obrigado”?
Curioso é que as pessoas normalmente agem assim, sendo mulheres maduras que querem moldar rapazes, sendo pais que querem estampar filhos, amigos que querem interferir em outros amigos, maridos que querem controlar esposas e poderia citar muitos outros exemplos. Eu ainda não comprei o livro, infelizmente, e nem posso falar acerca de. Mas é certo que estou enxuta quanto ao que posso ler. Sem pré julgar e nem é porque eu não faça isso, sou bem humana. Entretanto, prefiro não desprender energia com este tipo de babaquice, minhas sinapses agradecem.
Ah! e ainda, quantos livros célebres foram escritos a partir de situações onde existe relações de controle, domínio – e o diabo a quatro – sobre o outro? Milan Kundera é ovacionado por A insustentável leveza do ser, não esqueçamos.
Outro ponto: será que o tal rapaz mais novo é que não exerce “verdadeiro” controle sobre a tal mulher? Eu não sei dizer, posso tentar depois que ler.
Na verdade eu gostaria de continuar muitas linhas, mas sou prolixa que só.
Pra terminar este comentário enorme, concordo com o que Vanessa transcreveu no começo sobre o homem não poder confiar no próprio pau. Quem sabe não seja uma possível causa pra eles “se morderem” dessa maneira?
Imagine, deve ser bem chato, mesmo.
Sim, Patrícia, todos somos neuróticos – já disse Freud. Uns mais, outros menos…
Sou muito machista para aceitar que uma mulher ensine um homem, mesmo que seja mais jovem ; )
Rss, você não passou na “Escolinha da Nina”, Fabi.
Maurício,
DEFINITIVAMENTE, continuo detestando tatuagens, rs.
Pingback: Thaís
Deu vontade de ler.. E eu sou homem e gosto da Fernanda, viu?
Opa, mais um para o time!
Li todos os livros dela, embora tenha começado pelo inverso. O Primeiro foi Carta Para Alguém bem Perto.
Aprecio os trabalhos dela. Ela escreve, representa, apresenta, se desnuda , claro que por dinheiro, porque a vida de hoje é outra coisa e não existem mais contratos fixos no meio artístico, nem adiantamentos nas editoras, ela é uma cronista do nosso tempo , do escracho em que a nossa vida virou por falta decrescente da educação de antes. Ela é um espelho, como toda pessoa pública sensível. Talvez você já tenha visto as interpretações da Fernanda Torres, por exemplo, para entender o que eu falo como sendo um espelho.
Então, ainda não compreendi se você opinou, apenas criticou, qui dizer algo mais do que o livro, enfim, não compreendi suas palavras. Mas, assim como, no contexto , gostei do que você disse e da concisão, também gosto do que ela faz e que é representativo até mesmo da mulher de hoje, que se torna fálica, cada vez mais, e não encontra o chão ou o caminho de volta para aquilo que ela não sabia o que era. Parece ser um problema mundial. Pelos livros que tenho lido, focados na mulher, ela se move num tabuleiro novo: tinha uma situação definida socialmente (um lixo, por sinal), foi para outra queimando os pob res soutiens, e agora não sabe de que lado ficar. Acho isso mais decadente para a mulher do que simplesmente trabalhar.
“Então, ainda não compreendi se você opinou, apenas criticou, qui dizer algo mais do que o livro, enfim, não compreendi suas palavras”.
Paulo Cesar,
Eu, em contrapartida, não entendi o que não entendeste do que eu escrevi!
Abraço,
Vanessa
Eu assisto a Fernanada..Eu leio Fernanda..Adoro a Fernanda..
Sou mãe ,mulher e professora (pobre) e aposentada.
Pingback: Tudo que você não soube, de Fernanda Young (resenha)
Cara Vanessa Souza, gostei muito do seu texto. Acredito que ele me pensar em comprar o primeiro livro da Fernanda Young. Eu admiro essa mulher. A minha tese é que brasileiro não está muito acostumado com uma mulher tão corajosa como a Young, por isso existe um certo preconceito com ela. Mas ela é notável e mesmo que não queiram, ela é extraordinária! Só queria terminar essa mensagem lhe dizendo que eu caí aqui por total acaso! Valeu. VF
Comecei a ler o livro esses dias por recomendação de uma amiga. Nunca tinha lido nenhuma obra da Fernanda, mas posso dizer com toda certeza que o livro é MUITO BOM, assim mesmo, em caixa alta.