Uma borboleta encarcerada

por Juliana Dacoregio – Impossível assistir a O escafandro e a borboleta (França/EUA, 2007) e não pensar em valorizar mais a própria vida. É o pensamento mais simplista possível, mas é também o mais sábio. Eu estava com um certo receio de assistir ao filme. Sabia do que se tratava e não queria sentir o peso da tragédia daquele homem. É uma história realmente pesada. E por mais que Jean Dominique Bauby – que, baseado em sua própria história, escreveu o livro homônimo que deu origem ao filme – conseguisse rir apesar de sua situação, o riso dele faz só faz aumentar o nosso desconforto, por ficar evidente que seu rosto permanece estático enquanto há emoções em seu interior.

Bauby se viu preso em seu próprio corpo em 1995, quando sofreu um derrame que o deixou totalmente paralisado e incapaz de falar. Apesar disso ele não teve sua audição e visão afetadas e suas faculdades mentais continuaram funcionando normalmente. A situação irremediável em que ele se encontrou é chamada de Síndrome de Locked-in, ou seja, Síndrome do Encarceramento (um cérebro lúcido encarcerado em um corpo inerte). Apenas o olho esquerdo de Bauby possibilitava algum tipo de comunicação com o mundo exterior, já que as pálpebras do olho direito foram costuradas devido a um ressecamento da córnea. E foi através deste olho esquerdo que ditou um livro de 139 páginas contando sua história e suas observações sobre o novo estilo de “vida” que teve de encarar.

O livro de Bauby foi transformado em roteiro pelo mesmo roteirista de O pianista, Ronald Harwood, e o filme foi dirigido por Julian Schnabel, que conseguiu passar perfeitamente a sensação de sufocamento e de encarceramento que Bauby descreveu em suas memórias. O diretor permite que o espectador se coloque no lugar de Bauby, interpretado por Mathieu Amalic, através de tomadas que mostram apenas aquilo que o personagem conseguia ver em seu limitado campo de visão. A primeira metade do filme se passa dessa forma, sem que possamos ver o rosto do personagem, vendo apenas o que ele é capaz de enxergar, além de flashes das lembranças de Bauby da época anterior ao derrame.

A primeira visão do rosto de Bauby só acontece quando ele mesmo vê seu reflexo nos vidros do corredor do hospital, que passa a ser sua casa. A visão é chocante tanto para o espectador quanto para o próprio Bauby, que ainda não havia tido a oportunidade de vislumbrar sua nova aparência física. A partir do momento em que o personagem vai aceitando sua condição, seu rosto e corpo começam a aparecer claramente, o que dá ao espectador a idéia completa da tragédia que se abateu sobre o personagem.

Mas mesmo com toda a deficiência que seu corpo apresenta, ele continua sentindo, pensando e amando como antes do derrame. Em sua mente, diz “não é justo” quando belas fisioterapeutas e fonoaudiólogas vêm tratá-lo. “Elas são umas beldades e estou nesse estado, não é justo”. Inclusive em determinado momento ele torce para que uma delas se incline mais para ter uma melhor visão do decote da moça. Bauby também continua amando sua namorada mesmo que ela se recuse a visitá-lo com a justificativa de que não agüentaria vê-lo naquele estado. Quem está sempre presente é a ex-esposa, interpretada por Emmanuelle Seigner, que demonstra tanto amor e dedicação a ele que chega a intermediar uma conversa ao telefone entre Bauby e a namorada, mesmo sendo ainda totalmente devotada e, possivelmente, apaixonada pelo ex-marido.

E são mesmo as mulheres que ajudam Bauby a encontrar algum sentido em sua vida de corpo doente em mente lúcida. A fisioterapeuta, a ex-esposa, a secretária designada para tomar os ditados do livro dele. Estas passam a ser o mundo de Bauby, que antes era tão cheio de vida e ativo e de repente se vê totalmente dependente dos cuidados de outros.

É um filme profundamente tocante e sufocante. É um filme que nos deixa com uma urgência de viver, logo que terminamos de assisti-lo. É uma lição de vida dada por um homem que só podia viver dentro de sua própria mente.

“Decidi parar de ter pena de mim mesmo. Além do meu olho, há duas coisas que não estão paralisadas: minha imaginação e minha memória”, disse Jean-Dominique Bauby.

O escafandro e a borboleta recebeu 4 indicações ao Oscar, nas categorias de Melhor Diretor, Melhor Fotografia, Melhor Edição e Melhor Roteiro Adaptado e ganhou 2 Globos de Ouro, nas categorias de Melhor Diretor e Melhor Filme Estrangeiro.


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6 comentários | Dê sua opinião

  1. Adriana 31/01/2009 em 10:30 am

    Assisti a esse filme nesta semana. Não sabia nada a respeito do enredo e me chamaram a atenção o título, as indicações e premiações. Quando começaram as primeiras cenas fiquei meio em estado de alerta e aos poucos, junto ao personagem, fui me acostumando à idéia. O filme é lento, monótono, repetitivo,mas instigante. Não sei se gostei do filme, mas certamente, é perturbador, marcante. Boa análise, Juliana

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  2. Lila 31/01/2009 em 5:10 pm

    Juliana, esse filme está na minha lista e com a sua análise sobre ele, mais interessada fiquei, porém com o comentário da Adriana, vou esperar pra quando estiver sózinha, pois filme lento e monótono o pessoal aqui de casa nem passa perto….rs….. e por falar em filme, quando será que vem pra cá o Marley e Eu? to inconformada que até agora nem sinal dele nas programações dos cinemas…..
    beijos e bom fim de semana!

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  3. Sabrina 02/02/2009 em 10:36 am

    O filme é formidável!!!!!!! É doce sem ser do tipo dramalhão…Foi um dos melhores que assisti no ano passado…

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  4. Cesar Kiraly 04/02/2009 em 3:56 pm

    Prezada Juliana,

    parabéns pela crítica. Ao ver o filme fiquei com a impressão de que existem dois abismos, o para dentro e o para fora, e os dois são igualmente assustadores. Independente das limitações, pode-se ter uma intimidade devastadora e as mulheres são importantes para que isso não aconteça. Adoraria expandir esses comentários para o mundo, mas os mantenho restritos ao belo filme.

    Um abraço,

    Cesar Kiraly

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  5. Kamila 05/02/2009 em 9:27 pm

    Juliana, eu concordo com muito do que foi escrito em seu texto. “O Escafandro e a Borboleta” começou, para mim, como um filme angustiante; mas se transformou num belíssimo retrato de um homem que deixou uma lição de vida tremenda. O diretor Julian Schnabel faz uma poesia visual e a atuação do Mathieu Amalric é uma das melhores do ano passado.

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  6. Pingback: Quando uma borboleta consegue sair de sua cela « Vida em Atividade

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