O ralo de todos nós

por Ana Al Izdihar - Agora entendi por que Selton Mello disse com os olhos marejados que esse era o personagem da vida dele: Lourenço coloca-o definitivamente no patamar dos atores maduros. Não que antes não o fosse, mas é diferente dessa vez. Acho que Selton até pode considerar sua carreira como: antes e depois de Lourenço. Um personagem que não tem nenhum apelo romântico, nenhum apelo “global”, nenhuma lembrança da “cara fofa” de menininho precoce que foi um dia. Lourenço é um personagem bastante complexo: patético, extremamente humano e que por isso mesmo nos atrai e nos repele continuamente.

Se você quer saber mais sobre os bastidores do filme assista aos extras. Vou falar aqui somente das minhas impressões sobre esse filme. Mais uma produção nacional que arrebatou os seguintes títulos: Melhor Filme no Festival de Cinema de São Paulo, Seleção Oficial no Festival de Sundance e Melhor Filme Latino-Americano no Festival de Cinema do Rio de Janeiro… Tá bom pr’ocê?

Já estou cansada de falar sobre a qualidade técnica dos filmes nacionais. Está tudo ótimo: fotografia, som, efeitos, cenários, figurino. Aliás, o figurino de O Cheiro do Ralo (dir. Heitor Dhalia, 2007) é impecável! Modelos de roupas urbanas com toques de brechó. Cores derivadas do cáqui acompanhando o tema, criando o mood. Nem dá pra comentar muito aqui senão eu entrego o enredo para quem ainda não viu. E isso só acontece, gente, porque o filme está bem costurado.

Baseado no livro de mesmo título, escrito por Lourenço Mutarelli – aliás, faz um personagem no filme, hilário! –, é a estória de um bizarro dono de loja de objetos usados. Um cara estranho que vai “refinando” suas esquisitices ao longo da narrativa. Um personagem que cabe direitinho na análise do processo de individuação sugerido por Carl Gustav Jung. Lourenço está atrás de um significado pra vida dele e na narrativa está em sua fase nigredo, ou seja, lidando com sua sombra (seu lado sombrio, sórdido, aquele que aparentemente todos querem esconder e que “os outros” rejeitam). E ao fazê-lo expõe-no a si mesmo e a seus clientes – e faz os clientes exporem os deles, já que descobrimos a nós mesmos quando nos relacionamos com os outros. E com sua espontaneidade na busca para iluminar sua sombra, vai se descobrindo, tentando também extirpar a sujeira, porém se encanta por si mesmo e pelas coisas durante esse processo.

Os tipos que aparecem em sua loja também não deixam a desejar no quesito estranheza e igualmente estão a lidar com sua própria sombra, cada um a seu modo. O envolvimento de Lourenço com eles é engraçado e mórbido ao mesmo tempo. Essa relação nos leva a pensar o quanto disso tudo que vemos na tela é somente ficção. Todos nós já conhecemos alguém que fosse estranho, e cá pra nós: a gente também tem nossas bizarrices de vez em quando, não é? Lourenço quer até comprar uma bunda!

As “esquisitices” se tornam toda sua vida, o tempo todo, uma busca insana por algum significado muito obscuro, representado derradeiramente pela bunda – a representação daquilo que esconde tudo o que é obscuro, sujo, mas também do quanto pode ser belo sem tudo isso. Lourenço fica obcecado pela bunda que pertence a uma jovem com muitas qualidades aceitas pela sociedade, mas as quais não interessam a ele. Ele só quer a bunda. Ao mesmo tempo em que se acostuma e se deslumbra com seu poder de se isentar emocionalmente de tudo e de todos, por coisificar a todos, ele chega a refletir em um momento da narrativa que as únicas coisas que foram realmente importantes para ele são as que não pode tocar. Parece um baita clichê, porém para Lourenço é a frase de seu insight, da sua tomada de consciência.

A pergunta constante no filme por todos (e por ele mesmo) que freqüentam o ambiente do personagem principal é “de onde vem esse cheiro?”. Ele sabe a resposta, vem do ralo do banheiro e é o único momento em parece desconsertado… “Não sou eu! É o ralo!” Até que um cliente faz a associação para ele: “o cheiro vem de você!”, já que quem usa o banheiro é você, então é você quem está cheirando a merda. O ralo entupido do banheiro que ele tenta consertar (às vezes, até parece sem convicção) pode estar diretamente ligado a sua mente. Seu inconsciente adormecido e cheio de sujeira para ser eliminada, o centro de sua nigredo.

A fim de fazer bons negócios, o protagonista explica que desenvolveu uma frieza ao analisar as coisas e essa frieza virou sua maneira de ser com tudo e “todos”, ou seja, as pessoas (e a bunda) também viraram coisas para ele. Tanto é que os outros personagens não têm nome… Há momentos em que você como espectador quer esganar Lourenço, em outros quer acarinhá-lo, em outros ainda se identifica com ele diretamente. E não é tão difícil entendê-lo mesmo achando suas maneiras nojentas: ele é tão autêntico com o que é e sente que nós acabamos por perdoá-lo em fração de segundos, nem que for somente para deixá-lo continuar sua sina só pra ver onde ele vai chegar com aquilo tudo. E… Pronto! Assim é que se conquista um espectador! Identificação total!

E tem mais, claro: seria necessário um ator que tivesse a habilidade de tocar essa moda nessa viola, ou seja, um ator que fosse capaz de captar e transmitir tudo isso: a coerência de um reles maluco, um cara humanamente patético, um Ricardo III dos trópicos, charmoso e nojento que nos arrasta para seus pensamentos e mundo fedorentos – e ainda por cima nos faz gostar e pedir mais! Pois, afinal, nos identificamos com ele, na sua busca de elucidar sua sombra. Selton Mello faz mais do que bem feito. Conseguimos ver e sentir a profundidade de Selton, por exemplo, na maneira como Lourenço cata as notas de dinheiro na sua caixinha de charuto para entregar aos clientes. Para cada cliente um jeito diferente de pegar no dinheiro, pois cada um o motiva diferentemente, cada um desperta nele uma faceta diferente de sua sombra.

O modo frio, medonho e ao mesmo tempo infantil com que ele fica mostrando aquele olho nojento para todo mundo: é de uma sutileza, que talvez não percebamos tão claramente por estarmos prestando atenção na trama, mas se não fosse essa interpretação tão sutil, não nos envolveríamos com Lourenço. Esse olho – totalmente desligado de suas fibras vitais, que o fariam um olho de verdade – pode ser a representação da maneira como Lourenço vê as coisas: com olhos atentos e sinceros, mas desprovidos de vida, um olhar frio e seco.

Mas mesmo antes do olho, a franqueza com que o vendedor abre o jogo com sua noiva no começo do filme é outro exemplo de um traço dele que nos assusta e ao mesmo tempo nos liberta. Sua sinceridade é quase como que de uma criança, mas é a de um adulto que está experimentando dizê-lo mais para ver como as pessoas se sentem, ou seja, com crueza, mesmo sendo verdadeiro. E claro, a reação da noiva é de alguém que não quer iniciar seu questionamento para encarar a sombra. Aí já viu… Aquela velha história: mulher pede para o homem ser sincero, quando ele o é, ela fica com raiva. E a gente dá razão, com raiva, para Lourenço.

Aqui, muito mais do que em outros trabalhos de Selton, sua versatilidade de voz foi usada de um modo bem diferente: não somente um toque a mais no personagem, para fazer uma gracinha. Seus talentos vocais são usados de modo a acentuar o jeito amuado de Lourenço, como se falasse para dentro, como se estivesse pesando alto. O tom monótono – como o próprio Selton diz, inspirado no jeitão de Paulo César Pereio – faz com que o espectador se concentre bastante no que ele está dizendo, pois às vezes ele está sendo sarcástico, às vezes parece estar sofrendo, às vezes estar sendo um pilantra… Então, você tem de ficar grudado em todo o personagem de Selton para entrar no mundo dele.

A busca de Lourenço – nome de origem latina (Laurentius) que significa laureado, ou coroado de louros, que remete também a alguém muito orgulhoso e inflexível – parece finalizar em nada numa leitura superficial. Mas de acordo com a alquimia do indivíduo não é bem assim. O final parece surpreendente, mas somente se visto literalmente. Na complexidade e humanidade de Lourenço é perfeitamente “previsível” o que aconteceu. (Em minha opinião, ele alcança o que fez por merecer: a compreensão do seu ralo interior; e nos mostra muito mais do que a perversão humana: ao ser o “cristo” da vez, nos revela a complexidade humana e a semelhança que une a todos nós.)

Tudo isso recebemos de presente de uma produção bem cuidada, roteiro inteligente, direção primorosa e, sim, da maturidade e firmeza de um ator que guia com humildade um personagem que é maior do que ele.


leia mais
Vinícius
A Árvore da Vida, de Terrence Malick
Apollo 18, de Gonzalo López-Gallego

3 comentários | Dê sua opinião

  1. Adriana 21/01/2009 em 11:09 am

    Análise brilhante desse filme que me encantou na primeira vez que assisti e mais ainda na segunda. Atuação impecável de Selton Mello, e o roteiro, brilhante. Parabéns! Foi a melhor análise que li a esse respeito.

    Responder
  2. Ana Al Izdihar 21/01/2009 em 2:33 pm

    Oi, Adriana!

    Ah, q bom q gostou! Tanto do filme (defendo o cinema nacional sempre q posso) e do minha “engatinhante” análise. Se quiser saber mais sobre visão (pós) Jungiana sobre filmes, me avise.
    Obrigada por nos prestigiar e volte sempre!

    Responder
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