O dia de Amélie
21–01–2009 --- Envie para um amigo
por Juliana Dacoregio – Relutei em terminar de assistir a O fabuloso destino de Amélie Poulain (França, 2001, dir. Jean-Pierre Jeunet). Estava no rol dos filmes que iniciei e parei antes da metade. Era um daqueles dias em que não se quer pensar; dia impaciente, insensível. Não era dia de Amélie Poulain. O dia de Amélie chegou num amanhecer de angústia. Desconforto e um choro engasgado que não saía e nem sabia por que estava ali. A cama parecia de pedra. Só me restou levantar e fazer um chá, como uma tentativa de apaziguar meus humores. “Preciso de um filme que jogue esse choro pra fora”, pensei.
Procurando na estante, encontrei O fabuloso destino. Não tinha certeza se me faria ir às lágrimas, mas na hora percebi que talvez precisasse não tanto de dramas, mas de algo que me embalasse. Um filme que me pegasse no colo. Logo de cara, com as primeiras cenas da Amélie criança brincando com as coisas pequenas do dia-a-dia, fui mergulhando naquele universo intimista de simplicidade e esquecendo minha própria dor.
Tenho por princípio não ficar me questionando por que não fiz isto ou aquilo antes. Mas quanto a esse filme caberia muito bem a frase “por que não o assisti antes?” Não é à toa que todos que já o assistiram me davam um olhar misericordioso e compassivo quando eu confessava que ainda não conhecia o fabuloso destino de Amélie Poulain. Agora farei o mesmo, mas não por arrogância. É que, sinceramente, eu gostaria que todas as pessoas que amo assistissem a esse filme. Porque ele é mágico. Porque tem o poder de ser inocente mesmo quando fala de orgasmo ou quando insinua uma cena de sexo no banheiro. Porque ele é muito real, escancarando os detalhes da existência humana, mas também nos fazendo embarcar em fantasias. Porque ele é uma festa para os olhos com suas cores fortes, a mistura ideal de quente e frio. É uma espécie de fábula sobre uma garota que depois de fazer um pequeno ato de bondade resolve devotar sua vida a resolver os problemas das outras pessoas.
Quem nunca teve vontade de decidir o destino alheio? Sobretudo daqueles que amamos e percebemos que metem os pés pelas mãos constantemente. Isso é o mais óbvio: querer influenciar as escolhas daquela amiga que está sempre sofrendo pelos caras errados, por exemplo. Mas temos vontade de nos intrometer em aspectos bem mais prosaicos da vida dos que estão ao nosso redor. Mesmo quando nosso próximo não dá mostras de que está infeliz com sua situação. Sempre enxergamos algo que poderíamos transformar e que faria a vida dos outros ficar muito melhor (na nossa opinião). A roupa que a amiga deve usar, pra onde nossos pais deveriam viajar nas férias, o emprego que o irmão deveria aceitar… É fácil e tentador demais sair por aí palpitando. Afinal, para os problemas alheios sempre temos solução.
Inclusive nos meteríamos na vida de Amélie, se possível, para fazer com que ela parasse de brincar com o próprio destino. Ela inventa mil artimanhas para adiar o encontro com aquele que pode vir a ser o homem de sua vida. Incomoda ver que alguém está indo devagar demais ao encontro de algo positivo para sua vida. Amélie poderia ter toda a pressa do mundo em encontrar o amor, mas quando a possibilidade se apresenta ela vai devagar e ainda cria obstáculos até chegar ao cara-a-cara. Por um lado, ela age assim por medo, já que sempre deixou a vida passar sem correr atrás de nenhum grande objetivo.
Mas também podemos enxergar a atitude dela por outro ângulo: todas essas artimanhas que ela usa, fazendo mil voltas antes do destino final, são uma forma de saborear melhor cada acontecimento. Sem pressa, sem correria, ela acabou encontrando o objeto de sua paixão, fazendo com que ele ficasse intrigado por ela a cada nova brincadeira. Adiar o prazer pode ser o maior estimulante. Viver uma conquista há muito desejada é maravilhoso, mas a expectativa para a chegada do grande momento também pode ser incrível. A preparação, o anseio, o contar as horas fazem parte da brincadeira da vida e com Amélie é possível perceber o quanto essa espera pode ser criativa.
Aliás, Amélie Poulain é um filme sobre criatividade, sobre não se render ao básico, ao tudo igual. É uma história sobre tentar fazer a vida diferente nas pequenas coisas e transformar a vida dos outros com pequenos gestos. Amélie pode ser uma personagem que se refugia no altruísmo para disfarçar o próprio medo, mas assistindo ao filme o que mais aprendi foi a ter menos medo, a deixar as idéias correrem mais soltas. Depois de os créditos subirem na tela eu já não tinha mais um choro engasgado e sim uma sensação de “como pude passar tanto tempo de minha vida sem conhecer essa história?!”
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18 comentários:




É um filme incrível!
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Que belo texto!!!!!!!!!
O filme é doce, delicado…quando o assisti fiquei encantada…reassistindo, senti as mesmas emoções de quando o ví pela primeira vez.
Até hoje quando vou a feira ou ao supermercado, vejo-me fazendo as mesmas coisas que fazia quando era criança…meter a mão com toda vontade naquele imenso saco de feijão…sentir o feijão, ou qualquer coisa que escorra entre os dedos é tão maravilhoso e simplório. São os prazeres de Amélie. A trilha sonora do filme é uma das mais belas que já tive o prazer de escutar…Yann Tiersen o grande responsável.
P.S. Eu tenho a trilha sonora completa, se quiseres gravo para você.
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Você tem razão. É um filme diferentemente mágico. A trilha sonora também é algo que não se pode esquecer. Legal o seu texto.
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Seu texto está tão lindo quanto o filme.
Sue
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O dia de Amélie…
O filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” pode fazer você caminhar mais leve pela vida….
Eu ainda lembro do dia em que assisti esse filme, e vi varios gestos meus refletidos na figura suave de Amelie. E desde então ele é o meu preferido. Eu adoro imaginar as coisas com ela, adiar os prazeres e sentir o coração saltar de ansiedade pra, quando não puder mais adiar o momento, aproveita-lo nos seus minimos detalhes… Como esse filme que, quanto mais assisto, mais enchergo coisas que não tinha visto antes. Mas a satisfação de vê-lo é sempre a mesma. Confortavél.
Eu também digo a todas as pessoas que amo que devem assistir esse filme.
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O filme é indiscutivelmente incrível! Toda a sua pureza nos atinge de uma forma tão doce, longe de ficarmos irritados por Amélie enrolar tanto o encontro com o seu amado, ficamos sim esperando a próxima ação dela, o que de novo ela irá aprontar para saborear cada parte do seu primeiro amor.
Outra coisa que também é como se fosse um personagem do filme são as cores fortes, que surpreendem nossos olhos a cada cena.
Maravilhoso.
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Bom dia Ju! Primeiro cometáriod e 2009. Estou começando a ficar preocupado, já é o segundo filme que a gente concorda!!!!!! Mas acho que mesmo que eu não tivesse gostado eu teria que assinar embaixo deste texto maravilhoso. Estou orgulhoso da minha madrinha.
1 bjo
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Bá, Ju!!! e eu ainda não vi sabia?
Entendo o que é ter noites assim, e como entendo.
Beijos, lindona!
Felicidades!!!!!
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é uma fábula moderna.
amélie ajuda o destino das outras pessoas mas deixa o seu caminha sozinho, sem facilitações. a sua felicidade é como a lagarta q precisa deixar o casulo sozinha, sem ajuda, para ser borboleta.
o filme lembra bastante a 1ª temporada de pushing daisies, outra fábula moderna.
1 abraço
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Amelie é um dos filmes da minha vida. Trilha, fotografia, argumento, direção. Vermelho e verde, fantástico.
É nossa essência, tão perdida em algum lugar….
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Só de ler o que você escreveu já me deliciei , imagine então quando assistir ao filme.
Obrigada pela sugestão.
Abraço
Angel
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Gostei muito! “Quem nunca teve vontade de decidir o destino alheio?” O filme é, realmente, sensacional e o seu texto sobre ele cumpre o seu papel.
Quem não viu o filme, mas leu seu texto vai correr atrás!
Sucesso!
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Bom, voltei aqui porque finalmente consegui com que minha amiga Juliana Fernandes deixasse um comentário no Amálgama (no post de hoje sobre o Chris Cornell). Daí lembrei de que fui eu quem tive o privilégio de apresentá-la a Amelie Paulain, que por incrível que pareça ela não conhecia. Aliás, o DVD que comprei dei de presente para ela. Amelie Paulain é sim uma história encantadora.
Sue
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Nossa, Ju… Que texto lindo, pungente e tocante. Impossível ler e não sentir vontade de ir correndo assistir o filme.
Eu fui apresentada a esse filme recentemente, por uma amiga muito querida, com gosto cinematográfico muito apurado e uma sensibilidade incrível para descobrir pérolas. Esse foi o motivo q me fez assití-lo.
Que surpresa incrível! Amélie p mim é um pedaço do céu bem aqui no mei da terra! É um filme q acalma o coração, faz-nos sentir vontade de ser pessoas melhores e nos deixa a incrível mensagem de que o fazer o bem é sempre recompensador. E sem falar que, a fotografia é uma das melhores que eu já vi num filme.
Audrey Tatou – que não me chamou a atenção em “O Código Da Vinci”, conseguiu dar vida à personagem. É uma combinação de Audrey Hepburn, Dolly Levi e Roger Rabbit. Ela se envolve no mundo que a cerca como uma maneira de realmente aproveitar a vida e é incrível a simplicidade mostrada nos momentos em que ela se encontra em estado de felicidade completa e total só por andar pelas ruas!
Algumas partes são hilárias, como o peixe de estimação que tenta se suicidar o tempo inteiro; ou o momento em que ela fala no telefone com o cara da loja pornô.
Não são muitos os filmes que conseguem criar seu próprio tipo de universo. Alguns que me veem a cabeça incluem “O Senhor dos Anéis”, “Beleza Americana” e “O Mágico de Oz.” Esses filmes são tão distintos e originais que parecem ter sido criados no seu próprio ponto no universo, intocáveis por algo. É assim que eu vejo “le Fabuleux destin d’Amélie Poulain”.
É um filme tão original, engraçado e caloroso, que consegue me deizar com um sorriso nos lábios por horas enquanto me ponho a pensar sobre minha vida, ando pelas ruas e as pessoas acham que estou ficando louca! Ele aquece meu coração e me dá aquele sentimento bom, que sinto quando converso e rio com uma amiga querida.
Eu não consigo verbalizar – da maneira que gostaria – o quanto eu AMO esse filme. Só de pensar nele me dá vontade de sair correndo e assistí-lo novamente!
Parabéns de novo, Juliana!
P.S.: Sue… minha amiga… acho que não vou devolver teu filme tão cedo!!!!
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Juliana, muito obrigada! Que bom saber que você tem vontade de assistir o filme após ler o texto, afinal foi uma crítica que escrevi com a emoção mesmo.
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Nunca vi uma crítica tão bem feita sobre o filme,parabéns.
Lindo mesmo,assim como o filme
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