Me dá um beijo
por Marco Lacerda – Num desses dias de fim de ano, num muro alto e largo em frente à minha casa amanheceu pichado um vistoso letreiro: “Flávio, me dá um beijo!”. Estava escrito com tinta indelével, dessas usadas pelos grafiteiros na guerra anárquica das paredes, onde se podia notar o pulso tenso do autor/a, agindo às pressas no sigilo da madrugada, enquanto cúmplices vigiavam as esquinas, iluminados apenas pela lua – não o astro, mas aquela outra lua à qual só têm acesso os poetas e os cantores de bolero.
Era enorme o letreiro, escrito com a alma e cheio de uma tristeza recôndita, para que Flávio o visse quando passasse, por mais distraído e indiferente que fosse. Quando notei o letreiro, estava lendo os jornais, dever de ofício que hoje em dia tornou-se algo pior que tomar um vidro de óleo de fígado de bacalhau em jejum. Pensei, enquanto lia as retrospectivas de 2008 – as notícias que alugaram nossa atenção no ano que se vai, aliás, já vai tarde e tanto faz – no aquecimento da Antártida, nas geleiras que julgávamos eternas mas que agora se desfazem em água que lenta e impiedosamente vão nos afogando. Haverá coletes salva-vidas para todos quando as águas bateram à nossa porta? Tomara que não. Enfim o Rio será uma cidade submersa e os escafandristas…
Revi com a mesma estupefação a história daquele casal que jogou a filha de seis anos do sexto andar e do cara de Santo André – Lindemberg é o nome dele? – que atirou e matou a namorada. Gente matando com crueldade requintada gente que devia amar e proteger. Olhei – pela última vez, espero – a foto daquele cowboy texano que entrou a cavalo na Casa Branca, lá se instalou por oito anos e acabou por transformar o mundo numa sucursal do inferno. Nunca é demais lembrar que texano é uma forma de vida anterior aos protozoários.
Li também, claro, mais um dos milhares de artigos sobre a eleição do primeiro presidente negro eleito para governar a maior potência do mundo. Pensei com meus botões cansados das minhas lamúrias: E daí? A essa altura do campeonato tanto faz se Barack Obama fosse azul, verde ou cor de rosa. O que interessa é se Obama – para além da vitória épica dos afro-descendentes – vai dar conta do recado num mundo onde acordamos diariamente sem saber se estamos na guerra ou num bordel. Eu já disse: se Obama fracassar, os próximos na fila para ocupar o cargo são os amarelos. E se eles não acertarem, só nos restará levantar as mãos para o alto e suplicar a intervenção de forças extra-terrestres. Se nos derem bola e formos ouvidos, quem sabe os próximos inquilinos da Casa Branca sejam verdes!
Tentei traçar uma visão panorâmica do mundo, mas de cada palavra impressa ecoavam gritos de dor e lamento, horrores que invadem nosso cotidiano e aos poucos trucidam dentro da gente a capacidade de indignação. Corrupção, impunidade, anúncios de cerveja atirados na nossa cara como odes travestidas ao alcoolismo, enquanto a cocaína ainda suja do sangue da guerra nos morros entope narizes de desocupados que não sabem onde gastar dinheiro. Nunca como naquela manhã senti toda a incerteza que cerca o destino do mundo e da vida. Com certeza por isso foi um sopro de ternura, esperança e paz interior constatar naquele letreiro na parede em frente à minha casa que ainda existe alguém no mundo que tudo o que espera da vida é apenas que Flávio lhe dê um beijo.
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Bem que esse ser poderia manifestar seu amor não sujando a cidade, muito menos riscando o muro dos outros. Pareço chato, mas sempre achei ridículo e até mesmo estúpido o facto das pessoas picharem os muros e pontes, principalmente com mensagem de amor.
Mas um ano que passa e outro que chega…
A introdução sobre o ato de paixão, eu não jogaria pedra…. Devez em quando o Coração toma conta da razão… dai acontece, o indivíduo limpa depois.. =D
Feliz Ano Novo e um grande 2009.
Marco
belo texto. Gostei!
Infelizmente vivemos em um mundo em que o amor se tornou algo obsoleto.
O ato de desejar apenas um beijo acaba parecendo tão infanti, pueril até.
Resgatar essa infancia perdida não nos tornaria melhores?
A corrupção, guerras idiotas, fome e miseria no mundo não desapareceriam?
Utopia?
Acho que propagar o amor ao proximo sempre será um ato especial,mesmo que seja pixando o muro,fazendo com que alguem ou ate muitos possam ter esse sopro de ternura no meio de um escaldante mundo de duvidas e incertezas políticas e econômicas.
Parabéns pelo post você propagou esse sopro!