Carta ao embaixador israelense no Brasil

Giora BecherCaro Senhor Embaixador Giora Becher,

É com profunda consternação que li o texto “O conflito do Hamas em cores” no site da Embaixada de Israel no Brasil. A importante posição que o senhor ocupa — representando um país em guerra em um outro país com a dimensão e a relevância geopolítica do Brasil — me leva a um raciocínio de mão-dupla. Ao mesmo tempo em que, pela força das circunstâncias, seria difícil esperar um posicionamento diferente por parte de um embaixador, a minha inabalável fé na humanidade não me deixa abrir mão da esperança. Penso que sempre vou esperar atitudes surpreendentes por parte de líderes para fazer do mundo um lugar menos desumano.

O senhor, infelizmente, não conseguiu alargar seus horizontes para além da costumeira lupa das ideologias e da defesa do “eu”, do “nós”. Repito que, uma vez representante de um governo e de um país, eu não poderia esperar do senhor uma postura francamente aberta, plural, humana e libertária. Há uma guerra em curso. Porém, eu poderia — e esperava, sim — que o senhor não contribuísse de maneira tão esmerada para este perverso mecanismo de falseamento da realidade e esforço pela construção de um absurdo consenso.

Permita-me, agora, fazer um reparo. O que acontece neste momento em Gaza, em Israel e na Cisjordânia não é uma guerra. O governo que o senhor representa está perpetrando um massacre. O senhor defende um torpe e cruel genocídio amparado pela justificativa da “luta legítima contra o terrorismo e o extremismo assassino”. Senhor Becher, algumas de suas palavras — e o cerne de sua argumentação — estão totalmente afinados com o discurso do presidente George W. Bush. Em um mundo sem espaço para inocência, coincidências não existem. Este mesmo discurso busca legitimar mortes, ocupações, guerras, massacres, assassinatos. O senhor fala em terrorismo? Pois o senhor encampa uma forma tão ou mais cruel de terrorismo: o terrorismo de estado.

Nenhuma morte é necessária. Nenhuma morte é justificável. Nenhuma morte é defensável. Em momento algum, em lugar algum, em contexto algum. Por favor, não caia na retórica fácil de “se vocês se colocarem em algum momento em nossos lugares”. Este argumento é utilizado sistematicamente desde 1947. Eu sinto falta, cada vez que ouço este tipo de discurso, de uma noção elementar. Senhor Becher, não é por não concordar com suas políticas que não nos colocamos em seus lugares. Há um abismo entre entender um contexto e aceitar posições.

Eu me coloco no lugar de vocês. Em Dachau, em Treblinka, em Auschwitz, em Sderot, em Tel-Aviv. Só que a isonomia é um princípio fundamental para um mundo minimamente humano, E, por isso, também me coloco no lugar de quem está em Gaza, em Ramallah, em Jerusalém, em Haifa, em Sabra, em Chatila. Do mesmo modo que também me coloco no lugar de quem está em Peshawar, em Bagdá, em Nova York, em Tbilisi, no Rio de Janeiro, em Sbrevrenitza, em Kigali ou em qualquer lugar em que pulse um coração.

Toda vida é sagrada, senhor embaixador. Deus — sejá lá que noção possa-se ter de Deus, ou até sua ausência — está em todas as pessoas. Dessa forma, não há qualquer argumento que me faça aceitar o massacre que está sendro perpetrado em Gaza. Como também não aceito o cerco, as ocupações e os assentamentos. Não são só bombas, tanques e foguetes que matam palestinos. A fome mata palestinos. As doenças matam palestinos. A falta de água mata palestinos. A falta de dignidade mata palestinos.

Por isso, mais uma vez digo que li seu texto com profundo pesar. São posições como esta que tornam este conflito uma areia movediça intransponível há tantas décadas. Eu me recuso, como ser humano, a aceitar a necessidade destas “operações” (a gramática pode ser muito perversa). E, por favor, furte-se a apontar miopia de minha parte. Como ser humano o Holocausto cala fundo em minha alma. E também como ser humano este novo Holocausto me dói no corpo todo. Israel transformou Gaza num inferno, senhor embaixador. Não há qualquer justificativa possível para tamanha covardia, tamanha crueldade, tamanha ausência de amor, fé e esperança.

O senhor pergunta se qualquer um de nós estaria disposto a viver nas condições enfrentadas pelos cidadãos de Sderot. Não, senhor embaixador, eu não estaria disposto. Como cidadão paulistano, minhas condições já são por si só tristes, sem a necessidade de foguetes caindo sobre a minha casa. E isso justifica que os palestinos devam viver sob as condições que vivem há tantos anos, confinados feito animais? Digo isto porque o que vimos nos últimos 14 dias não pode nem ser chamado de “condições”. Gaza, hoje, é a ausência de condições. O senhor sinceramente acha que este é um caminho possível? Além das mortes, dos ferimentos, além de toda a dor e sofrimento, Israel não está conseguindo nada além de semear mais ódio. Ou o que o senhor acha que pode brotar em solo tão arrasado?

Permita-me, por fim, não fraquejar na consistência de minha posição. O que está acontecendo em Gaza neste exato momento é um crime cruel contra a humanidade. Quisera eu poder dizer que é “sem precedentes”. Não é. A história, mais uma vez, se repete como tragédia, sob o verniz da farsa cada vez que um texto como o do senhor é veiculado. Frente a uma situação tão grave, é absolutamente necessária a condenação total de tais ações. E é aqui que concluo, senhor embaixador: essas quase oitocentas mortes, e todas as que vieram e virão na esteira dessa postura inflexível e covarde, habitam a sua consciência. A sua e a de todos que buscam justificar esse genocídio — esse verdadeiro campo de concentração, sim, em que Gaza foi transformada — sob qualquer argumento. Os silogismos, a “guerra contra o terror” e a retórica empertigada de que “as casualidades civis são profundamente sentidas” estão sujos de sangue. Casualidades, senhor embaixador? Esta palavra não ressoa em seus ouvidos ao deitar sua cabeça no travesseiro à noite?

Não espero, com essa carta, atingir mudanças minimamente significativas. Se, no entanto, ao menos por um breve momento, eu conseguir lhe promover alguma reflexão, penso que minha iniciativa já terá alguma valia.

Que a esperança nunca nos abandone. Espero sinceramente que o meu filho que ainda não nasceu possa brincar com os filhos do senhor em um mundo com menos casualidades e mais compreensão, respeito à vida e um sincero sentimento de amor aberto a tudo o que é humano.

Obrigado por sua atenção.

Paz,

Guilherme Conte, jornalista e escritor
São Paulo-SP


leia mais
Conexão Israel-África do Sul – Entrevista com Sasha Polakow-Suransky
Discurso de Ian McEwan na Feira do Livro de Jerusalém
Aluízio Bezerra Coutinho: Uma busca pela liberdade

7 comentários | Dê sua opinião

  1. jose carlos ferraz de camargo 12/01/2009 em 1:35 pm

    Seu texto,na forma e no conteúdo,é uma obra de arte,mas pára por aí.Comparo a faixa de Gaza a uma das nossas favelas, dominadas por bandidos e onde sempre ocorre morte de inocentes nas incursões policiais.Geralmente, a bala perdida é sempre disparada pelo policial.O bandido nunca atira.O problema está em como separar o joio do trigo,e essa solução você,em seu brilhante texto,não apresenta.Como sempre todos têm medo de meter o dedo na ferida.O Hamas é um grupo terrorista,covarde,como os traficantes dos morros cariocas, infiltrados entre gente de bem e devem ser exterminados.

    Responder
  2. Danielle 13/01/2009 em 7:31 am

    Guilherme, parabéns pelo excelente texto! Impossível não se emocionar . Assim como você, acredito que, embora exista tantas adversidades, ainda é possível viver num mundo sem precoceitos, aonde as diferenças (de raça, cor, opinião) sejam respeitadas. O mundo precisa de menos religião, e mais religiosidade. Se me permite, farei seu texto circular entre amigos e conhecidos, quem sabe, dessa forma poderemos semear a conscientização e respeito ao próximo,e principalmente, respeito à vida.
    Guilherme, que Deus te proteja e te ilumine. Que nunca te falte a sabedoria (essa, a que vem do coração), e que seus votos de paz estejam presentes entre nós.

    Responder
  3. Guilherme Caspary 13/01/2009 em 4:36 pm

    Prezado Jornalista/escritor
    Seu texto, perfeito na forma, peca pelo total desconhecimento dos fatos atuais e antecedentes. Os palestinos merecem viver com dignidade e terem seu proprio pais, mas infelizmente isto nao aconteceu ate hoje por culpa exclusivamente de seus lideres e vizinhos arabes que desde 1948 nao aceitaram a existencia de Israel. Desde 1948 vivem em situacao deploravel porque os proprios paises arabes que mandaram eles abandonarem seus lares nao lhes deram cidadania e os mantiveram ate hoje em campos de refugiados. Hoje ainda nao existe a nacao palestina porque sempre que se esta perto de conseguir eles atacam Israel, forcando uma retaliacao.

    Responder
  4. Thiago Marques 13/01/2009 em 5:46 pm

    O Guilherme Caspary precisa estudar um pouco mais de História. Comece por essa entrevista, com importante historiador israelense: http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM944425-7823-SILIO+BOCCANERA+ENTREVISTA+ILAN+PAPPE,00.html

    Responder
  5. Guilherme Conte 13/01/2009 em 7:50 pm

    Caros,

    Muito obrigado pelas manifestações; fico muito feliz que minha carta tenha provocado tantas coisas boas. Acredito que este tipo de debate é o início de um caminho. Precisamos conversar mais e nos atirar menos. Tentarei (e falharei…) ser breve, correndo o risco de, talvez, ser raso:

    José Carlos – É, de fato acho que discordamos frontalmente. Em primeiro lugar, acho que todo e qualquer extermínio é condenável, nunca uma solução ou sequer uma alternativa minimamente cogitável. Quanto a comparação às favelas, também discordo: a violência das favelas está ligada à fratura de um estado e a um comercio bilionário internacional de drogas. E Gaza é um conflito étnico, terrotorial e, repito (não me canso e jamais cansarei de sustentar): é genocídio SIM. Da mesma forma que vimos no estado nazista e da mesma forma que vimos em 1994 em Ruanda. A “guerra contra o terror”, nesse caso, para mim, não passa de uma falácia utilizada para acobertar esse crime contra a humanidade.

    Guilherme – Faço uma simples pergunta, que está na gênese de todo o conflito: se o Estado de Israel não tivesse sido criado em uma terra ocupada por toda uma população, fosse altamente militarizado, financiado pelos Estados Unidos e não contasse com o silêncio conivente da ONU e da comunidade internacional, haveria os refugiados ou campos de refugiados a que você se refere? Refugiados estão fugindo de alguma coisa. A Guerra dos Seis teve um caráter essencialmente expansionista: Israel tomou a Península do Sinai e botou sua retirada como condição nas mesas de negociações. Como você oferece, em troca, algo que originalmente não é seu? Eu nem precisaria voltar no tempo. Não são os vizinhos árabes que estão utilizando fósforo branco — armas químicas, que queimam em contato com, pasme, oxigênio — em seus bombardeios. Não são os vizinhos árabes que estão assassinando populações civis e crianças. Não são os vizinhos árabes que bombardearam um comboio da ONU. Não são os vizinhos árabes que botaram 150 pessoas em uma casa e a bombardearam na seqüência.

    Se eu pudesse resumir minha argumentação em um ponto essencial, seria o que já mencionei: o que está acontecendo hoje não é uma guerra contra o terror. O que está sendo perpetrado é um genocídio, uma tentativa de extirpação de todo um povo, um crime que seguramente figura no rol dos mais cruéis de toda a história. É por isso que a condenação deve ser total, imediata e inegociável. Um caminho para a paz só será possível quando cessarem os bombardeios sistemáticos, os cercos, as ocupações, os bloqueios e os assentamentos, uma vez que o erro foi feito na própria criação de Israel, às pressas e refém de interesses circunstanciais. Não se cria um país onde já existe um país. Isso, no entanto, não vai acontecer enquanto a comunidade internacional — leia-se, fundamentalmente, Estados Unidos — não assumir uma posição digna, coerente e firme. Barack Obama tem uma oportunidade histórica em suas mãos. Seu silêncio até o momento, no entanto, nos leva a um flagrante ceticismo. O que podemos fazer? Não nos calarmos e, afinal, ter esperança, porque é ela que nos mantém vivos em meio a tanta crueldade.

    Responder
  6. Frederik Oliveira Miranda 13/01/2009 em 10:21 pm

    Estamos em pleno século 21 e parece que somos bárbaros . Temos uma gerra civil no Rio de Janeiro por problemas politicos . Mas o que esta acontecendo em GAZA e o maior e mais covarde de todos os crimes contra a humanidade .Que o povo de Israel lembre-se do que já sofreu e que tenha como prioridade a paz entre os povos . Por que o estado de Israel não é e nem será o berço da civilização . Em todas as formas . Como brasileiro descendente seja lá o que for . Judeu ,Arabe , Africano e etc..Obrigado por este espaço . Frederik  Oliveira Miranda

    Responder
  7. Aguinaldo Gibo 12/08/2009 em 9:30 am

    PreZado Guilherme Conte

    Sou um brasileiro que moro no japão a vinte anos e venho assistindo o mundo fora do Brasil. Penso em voltar para o Brasil ou não… só Deus sabe. As circunstâncias são difíceis. Acredito no poder do ser humano. Conheci diplomatas, embaixadores e muitos homens intelectuais e que em minha posição de humano fico a pensar: ” O mundo poderia ser melhor….”
    Deste que era jovem sempre tive a convicção de que o Brasil poderia mudar e não desisto da idéia, gostaria de me fortalecer e ter mais conhecimentos das pessoas que defende a educação no Brasil e acredite que o Brasil virá a ser a primeira potência mundial . Gostaria de conhecer e dar meu apoio no que puder.
    Sou agradecido pelo espaço e agradeço no que puder.

    Responder

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

----- Consulte os arquivos do Amálgama ||| Publique ||| Contato ||| Para reproduzir nossos textos -----